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Elfquest – Rebeldes Americanos

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Até a primeira metade do século XX o mercado de quadrinhos dos Estados Unidos foi considerado o mais prolifico do mundo. Era possível encontrar de tudo lá, desde montanhas de boas tirinhas, passando por quadrinhos de Fantasia, Ação, Comédia, Horror, Infantil, Adulto, Guerra e até mesmo os inspirados em obras literárias e pulp fictions. Passar da tiragem de um milhão de exemplares era comum mesmo para o título menos conhecido.

Porém, nos anos 50, muitos destes gêneros de quadrinhos ‘desapareceram’. Primeiramente por culpa da caça-às-bruxas que ocorreu nesta década com a publicação do livro “Sedução dos Inocentes”, do psicólogo Fredric Werthman, que acusava os quadrinhos (sobretudo os gêneros para adolescentes e adultos) de serem responsáveis por criar delinquentes juvenis e criminosos. Neste livro que foi lançada a primeira dúvida no relacionamento suspeito de Batman e Robin, o lesbianismo da Mulher Maravilha, a falta de patriotismo de The Spirit e outros.

Estava feita a desgraça: foi lançado o Comics Code Authority e agora os pais só compravam para os filhos quadrinhos “seguros”. E eu digo seguros MESMO, pois até as histórias do Pato Donald na época passaram pela tesoura da censura por motivos completamente tolos, como uma simples briga mais exaltada entre o pato e seus sobrinhos – autênticos ‘delinquentes juvenis’. Foi nesta época que os super-heróis tiveram que ficar ‘bobinhos’ para sobreviverem, mas a situação se tornou mais cruel para outros gêneros tradicionais, já citados no primeiro parágrafo. De um dia para o outro só ‘supers’ restaram nas bancas.

A coisa piorou com a Crise do Petróleo e o aumento geral do preço de tudo nos anos 70. Papel ficou mais caro e os quadrinhos começaram a perder páginas para se manterem na casa dos centavos (o que, com o tempo, acabou fazendo as originais 64 páginas de quadrinhos se transformarem no atual ‘formato americano’ de 20 páginas). Muitas editoras começaram a falir e, para conseguirem manter as vendas ao menos estabilizadas, migraram suas obras das arriscadas bancas de jornal para as seguras ‘lojas de quadrinhos’ que estavam se formando naquela época.

O ano era 1978. As bancas (ou melhor, as Comic Shops) americanas estavam inundadas total e completamente por quadrinhos de super-heróis. Nesta época nossos vizinhos  já haviam transformado seu próprio mercado de quadrinhos num desoxigenado reduto de nerds. Se nos anos 50 Super-Homem vendia dois milhões de exemplares, agora ele estava reduzido a menos de cem mil edições e caindo. Isto na passagem de menos de vinte anos. Quadrinhos deixou de ser algo que todo mundo lia para se transformar numa coisa de ‘gente esquisita’.  Foi nesta época que ELFQUEST foi criado.

Elfquest conta a história de um grupo de… bem… elfos! Mas ao contrário das criaturas escandinavas que estamos acostumados, os elfos de Elfquest possuem modismos semelhantes aos índios americanos. A história começa com eles lutando para sobreviver após terem a sua floresta destruída. Movidos pela garra e pelo desespero, e liderados pelo seu jovem líder Cutter, eles atravessarão montanhas e desertos até encontrarem um novo lar. E terão, inclusive, que lidar com outros elfos hostis. No meio disto tudo enfrentarão inimigos em batalhas sangrentas, sofrerão perseguições ‘políticas’, entrarão em conflitos com seus parceiros, vão filosofar sobre a vida e farão sexo… muito sexo.

Untitled-1A obra, criação do casal Wendy e Richard Pini, foi lançada de forma independente nos Estados Unidos, pois dificilmente uma editora americana da época apostaria naquele gênero: Fantasia. Muito menos um que viesse recheado de coisas ‘perigosas’ para o, ainda em vigor, Comics Code. Mesmo assim, aos poucos, a obra ganhou notoriedade – como um pequeno oásis que algumas poucas pessoas encontram e chamam os amigos para provar.

Apesar da história começar com um pezinho meio no território ‘AlémdaLenda’, dando aos elfos (e sobretudo aos seus maiores inimigos, os trolls) um ar levemente cartunesco, aos poucos este fio vai se quebrando e a obra começa a ficar mais séria.

Logo, as aventuras de Cutter e seus amigos começaram a ganhar fôlego. Mais de duas centenas de edições foram lançadas da marca, divididas em várias séries diferentes. Estava aberto o caminho para as pessoas comuns conhecerem um pouco do quadrinho ‘underground’ americano, que naquela época contava com títulos que, até hoje, não conseguiriam ser publicados no ‘mainstream’ com facilidade. Elfquest ainda teve o mérito de ser um dos primeiros quadrinhos americanos a atrair um grande número de mulheres para apreciar a Nona Arte.

Após muitos anos, o título passou a ser publicado em editoras grandes, como Marvel, DC Comics e, agora, tem sua casa cativa na Dark Horse, que está no momento publicando THE FINAL QUEST, a última aventura da saga – e republicando os volumes clássicos.

Quase trinta anos após o seu lançamento, Elfquest foi publicado no Brasil em duas modestas edições pela Editora Mythos. Para variar, o público brasileiro não digeriu bem este tipo de fantasia-underground. Talvez tenham se incomodado porque os elfos retratados pelo casal Pini em nada se parecem com os já conhecidos elfos Tolkeanos, sem falar que a arte possui um ar retrô que realmente não é para todos os gostos. Não mentirei e direi que Elfquest é uma excelente obra de fantasia porque ela possui sim algumas falhas, mas dá para entender por que ela fez tanto sucesso na época do seu lançamento: a história possui um ar de frescor e humanidade que, até hoje, não é comum encontrar na maioria dos comics americanos.

Se você ficou curioso para ler Elfquest, saiba que os autores fizeram a gentileza que publicar a saga na íntegra em seu site oficial ===> ELFQUEST ONLINE. O conteúdo está em inglês, mas vale e muito a espiada.

Written by Jussara Gonzo

10 de abril de 2014 at 8:14

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Revista Tintin Semanal

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Nos anos da Segunda Guerra na Bélgica uma importante revista de quadrinhos da época foi extinta: Le Petit Vingtième. Esta revista clássica de quadrinhos teve a honra de hospedar em suas páginas as primeiras aventuras de Tintin, o repórter de topete que muitos já conhecem. Hergé, seu criador, teve que migrar seu personagem para o jornal Le Soir, que era mantido pelo regime nazista.

Quando a guerra acabou tudo que era relacionado aos nazistas recebeu um ódio extremo (e com razão) e um pouco deste repúdio respingou em Hergé, que foi acusado de colaboracionista. Com esta fama seria difícil para ele voltar a publicar em qualquer lugar do seu país. Por isso, em parceria com um homem de “boa fama” chamado Raymond Leblanc (que era considerado um herói da resistência), ambos lançaram Le Journal de Tintin.

A primeira edição foi publicada em 26 de Setembro de 1946 (sendo interrompida apenas em 1988 e retornando em alguns especiais em 1993). Obviamente o repórter e seu cãozinho Milou estavam nas páginas do semanário, mas a revista também trazia outras pérolas como CliftonBlake & Mortimer, Oumpah-pah, Bruno BrazilRic Hochet e alguns quadrinhos estrangeiros, como Corto Maltese e Spirit. Em 1948 a França também abraçou a revista e, bem depois, nos anos sessenta, a revista aportou em terras de língua portuguesa.

A revista foi publicada simultaneamente no Brasil e em Portugal pelas editoras Ibis e Bruguera. A versão em português da revista também trazia outros títulos famosos que não estavam na Tintin original, como Asterix, Lucky Lucke e outros. Também tinha uma sessão de artigos que  falava de vários assuntos sobre quadrinhos, cultura e arte. Segundo consta, em Portugal, serviu até para apresentar alguns talentos nacionais da ‘banda desenhada’.

001Na terra lusa a revista durou 14 anos e publicou generosos 750 números. No Brasil durou apenas um semestre com escassas 26 edições… Uma informação que me fez ter vontade de morrer! Foi um dos poucos momentos em que o mercado editorial brasileiro teve tantos títulos franco-belgas de qualidade publicados ao mesmo tempo! E, pelo andar na carruagem, vai ser difícil voltar a ter…

Encontrar estas revistas em sebos no Brasil é como garimpar ouro na pia da cozinha: beira o impossível, mas às vezes você dá sorte de encontrar aquela rosquinha de brinco de 18 quilates que você perdeu décadas atrás. E quando você as encontra geralmente o dono do sebo não tem a menor ideia do que tem em mãos e coloca um preço que pode variar de 5 reais (o menor que já encontrei) à 15 (o maior) – às vezes confundindo com um álbum encadernado de Tintin e tascando o mesmo valor!

Por isso, sem dó nem piedade, divulgo aqui o link do excelente blog de scans lusos Tralhas Várias que possui uma página dedicada apenas ao semanário Tintin (e mais uma porção de outras ótimas BDs franco-belgas que você precisa conhecer!). Lá eles possuem os scans de todas as edições publicadas no Brasil e pouco menos da metade das centenas que foram publicadas em Portugal.

Se você já está cansado da mesmice da maioria dos comics americanos e mangás japas, esta é uma boa oportunidade para você conhecer este gênero de quadrinhos tão diferente (mas ao mesmo tempo tão espetacular!) que são as bande dessiné Franco-Belgas. E que está fazendo muita falta neste nosso infeliz mercado plano de quadrinhos.

Baixe e leia que vale a pena!

http://tralhasvarias.blogspot.com.br/2012/11/revista-tintin-semanal-todos-os-numeros.html

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Written by Jussara Gonzo

4 de abril de 2014 at 9:42

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Written by Jussara Gonzo

31 de março de 2014 at 8:39

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Steampunk: Vapor e Atitude

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Você já ouviu falar neste termo em algum lugar, certo? E, com certeza, já se interessou!

Máquina retrofuturistas em plena Era Vitoriana! Homens de casaca e cartola posando de grandes cientistas! Computadores que soltam fumaça ao invés de faiscarem com eletricidade. Que mundo estranho é este?!

Venha comigo e hoje você descobrirá!

 

Mastigando Palavras

O que é Steampunk? Ou melhor, o que é Steam, o que é Punk e, aproveitando o ensejo, o que é Ficção Científica? Vamos fingir que você nunca ouviu falar de nenhuma destas palavras. Irei explicar cada uma delas para você:

“Steam” é vapor em inglês. E por enquanto é só isso que você precisa saber.

“Ficção” é um gênero da literatura (e cinema, e quadrinhos) onde assume-se que os fatos contados sob seu prisma não são verdadeiros. Um relato falso ou não comprovado empiricamente. É utilizado para denominar narrativas irreais e imaginárias, às vezes baseada em fatos reais (comprovados ou aceitos por uma maioria), mas distorcendo-os ao sabor do narrador. Para o senso-comum não é difícil separar ficção de realidade, mas filosoficamente a coisa já se complica, pois a própria realidade não pode ser “provada” de maneira empírica.

“Científica” tem a ver com a ciência (jura?). A palavra tem origem latina e quer dizer “conhecimento”. Todo o conhecimento que a humanidade adquiriu desde que começou a pensar pode ser considerado como ciência, do plantio, passando pelas roupas, até o modo de falar e andar. Numa definição mais restrita a ciência tem a ver com conhecimentos e procedimentos sistemáticos, que ganham uma explicação baseado em pesquisa e provas empíricas.

Portanto “Ficção Científica” nada mais é do que a ciência vista de uma forma totalmente contraditória à sua natureza: se ela precisa de provas e fatos reais, a ficção rouba-lhe estas duas características – ou então lhe dá explicações esdrúxulas. Mas ainda assim calça-se dentro do que é conhecido e aceitado como cientificamente possível, apenas extrapolando alguns pontos para a diversão do expectador.

O gênero Ficção Científica pode ser futurista, fazendo conjecturas sobre a evolução tecnológica nos anos que se seguirem; como em “Eu, Robô” de Isaac Assimov, “Jornada nas Estrelas”, “Exterminador do Futuro”, “O Planeta dos Macacos”, entre outros. Pode ser contemporânea, exagerando o poder da tecnologia atual ou inventando máquinas que, embora existam, não estão disponíveis para o público em geral. Como “Arquivo X”, “Parque dos Dinossauros”, “Matrix” e todas as obras de Julio Verne (que embora hoje suas histórias se passem no “passado” ele as escreveu naquela época, portanto é ficção científica contemporânea.)

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Finalmente temos a ficção científica anacrônica. Histórias que se passam no passado, tendo personagens com acesso à tecnologia muito mais refinada do que seria possível para a época. O Steampunk é só UMA vertente deste nicho, embora seja a mais conhecida.

O romance que deu origem ao gênero Steampunk foi “The Difference Engine”, em 1990. Somos apresentados à uma Era Vitoriana totalmente diferente em termos tecnológicos graças ao advento da Máquina Diferencial (a tradução do título): um computador analógico criado por Charles Babbage, que iniciaria a era da informática em pelo menos um século antes. A invenção realmente existiu, mas jamais foi construída. Na história ela não só foi construída como modificou a vida das pessoas daquele século, dando a elas acesso à tecnologia quase impossível de se imaginar no final do século XIX.

Bacana, mas… o que o “Punk” tema  ver com a história? Alias o que é Punk mesmo?

 

Punk, mais (e menos) do que aparenta

Vulgarmente, o “Punk” é conhecido como um movimento que tem como bases principais a anarquia, a rebeldia e o rock mais barulhento possível. Seus adeptos usam jaquetas, calças rasgadas, alfinetes na boca, brincos nas orelhas e cabelos desgrenhados. Na verdade esta é a imagem “showbiz” do punk, que veio após o seu surgimento e na esteira da sua popularização.

O punk, em suas raízes, surgiu mais ou menos da mesma forma que TODOS os outros movimentos culturais “jovens”: veio da indignação de uma geração com o status quo do mundo em que viviam – incluindo com a própria cena musical que se seguia.

No início dos anos 70 o movimento hippie já era coisa de gente velha. Os grandes ídolos estavam mortos ou morrendo, como Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison e os que sobreviveram (por certo tempo) se fecharam no ostracismo, como John Lennon, Brian Wilson e Syd Barret. E de resto, o mundo estava sendo tomado por shows de rock progressivo, com músicas que duravam 20 a 30 minutos e shows cada vez mais caros e inacessíveis.

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O rock, que até a década de 50 era coisa de maloqueiro, nos anos 70 entrou na casa de pais de famílias (sendo que muitos deles foram roqueiros também), tornando-se pop. Aquele movimento musical frugal e de periferia, iniciado por Chuck Berry e outros, terminou sendo apresentado em grandes estádios, com o rock virando Ópera (como o próprio estilo “Opera Rock” decretava) e falando de temas grandiosos demais, como o Yes e seu “Tales from Topographic Oceans”, um álbum duplo com apenas 4 músicas, cada uma ocupando um lado inteiro do LP (!!!).

Porém, nos circuitos mais barra-pesada, rolava shows para uns poucos adeptos de bandas que, posteriormente, seriam conhecidas como “proto-punk”: Velvet Underground e seu psicodelismo “deprê”, MC5 e sua música barulhenta e politizada, The Stooges, com seu vocalista demente e autodestrutivo ao extremo (que chegava a rolar em cacos de vidro e vomitar na platéia) entre outros. E para não nos atrapalharmos, vamos seguir a ordem cronológica agora:

Em 1974, surgiu o Ramones, considerados os pais do punk rock. Basicamente uma banda que tocava rock “das antigas”, com músicas de três acordes, com pouco mais de um minuto de duração e com letras que falavam sobre a sua insatisfação com o mundo, sobretudo por serem feios e pobres demais para conquistarem a garota dos sonhos, ou mesmo para conseguirem ser rock-stars grandiosos, como o Led Zeppelin ou os Rolling Stones.

O rock voltava às raízes, e a banda ainda tinha um poder extra: durante suas apresentações eles revelavam um fabuloso poder multiplicador. As pessoas que assistiam aos Ramones percebiam que, se eles conseguiam fazer música, tocando bem mais ou menos e destilando letras tão simples, então QUALQUER um poderia! O princípio Faça-Você-Mesmo (do it yourself) foi o grande norte do punk – e é o que rege a cultura “alternativa” até hoje.

Mas ainda faltava um pouco mais de raiva. Os Ramones, bem ou mal, ainda eram garotos muito “dóceis”. E talvez isso tenha sido o que os fez desaparecer na esteira das novas bandas punks raivosas que surgiram, como o Damned, Buzzcocks, The Clash e Sex Pistols – alias esta última pode ser considerada a grande síntese do movimento punk: efêmera e autodestrutiva, embora em termos musicais devesse para todas as outras, mas quem se importa?

O punk basicamente se sintetizou num movimento de imensa revolta e desgosto pelo futuro. Para aquela geração de jovens dos anos 70, o ano de 1968 não adiantou nada: os governos ainda eram conservadores, as cabeças eram quadradas, a guerra fria uma ameaça e os hippies libertários estavam trabalhando em empregos monótonos para se sustentar, igual aos seus pais e avós. A base do punk estava lançada, e o tédio e o niilismo eram a lei. O punk foi um grito de medo e ao mesmo tempo ansiedade pelo “No Future” que se avizinhava. Se antes tínhamos uma utopia, agora vivíamos uma distopia.

Distopia? Alguém aí falou em ficção cientifica? Chegamos no ponto!

 

Cibernética, o pai do Vapor

Como já foi explicado, as coisas nos anos 70 não estavam nada alegres. De fato o clima era tão cínico e aviltante que ela foi declarada como a “Década do Eu”. As utopias pacifistas que hippies pregavam não eram mais possíveis. As músicas (ou melhor, óperas) das bandas de rock progressivo já estavam dando no saco. Os direitos humanos eram vilipendiados. A economia estava no buraco com a crise do petróleo. Tudo estava dando errado. Como ser positivo numa época assim? Só ouvindo muito Bee Gees e se esquecendo da vida real nas danceterias! Mas nem todos foram por este caminho.

No finalzinho desta década, entrou em cena um grande autor de ficção científica: William Gibson, que ficaria conhecido como sendo o pai do Cyberpunk, um subgênero da ficção científica que já estava em fase de gestação em contos distópicos desde o final dos anos setenta, mas foi somente em 1984, com a publicação de “Neuromancer”, que ele foi oficialmente dado como nascido. Neste romance vivíamos uma ficção científica contemporânea onde os computadores dos anos oitenta eram mais potentes que os dos anos oitenta “reais” e as pessoas podiam entrar em uma espécie de internet que, no romance, é um cyberespaço muito mais avançado, e perigoso, chamado Matrix (Déja vu?). Nele acompanhamos o infeliz protagonista Case que foi contaminado por uma toxina virtual e impedido de acessar a rede, mas pode voltar caso entre num esquema criminoso que pode piorar ainda mais a sua já complicada vida.

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E antes que vocês perguntem, “Cyber” é um prefixo muito comum e associado a qualquer coisa referente à computação. Nos anos oitenta a primeira coisa que se pensava em termos de computador eram os “mainframes”, máquinas gigantescas que, entre muitas coisas, rodavam servidores de comunicação interna semelhante ao que a internet faz hoje. Naquela época parecia assustador pensar numa “Matrix”, numa rede enorme de informações que qualquer um teria acesso: como um servidor de mainframe que abrangesse todo o planeta. Pior! Que haveria um “dono” para ela e que ele pudesse ver você em detalhes. Por isso é que os romances cyberpunk bebem deste clima de paranóia, censura, e degradação humana frente à tecnologia que fica cada vez mais avançada. Em resumo, um futuro niilista.

Tecnologia mais avançada implica, naturalmente, em mudanças no paradigma social. Se um monte de pessoas que, até ontem, não tinham internet e agora têm, é claro que a vida delas irá ter mudanças grandes. Isso, para nós, parece óbvio, mas não era tanto assim na época de Julio Verne. Para ele uma viagem à Lua seria tão interessante como a chegada do homem a uma nova ilha no Pacífico. Mas é claro que as implicações sociais e políticas que ocorreram quando o homem realmente pisou no nosso satélite em 1969 foram MUITO maiores que apenas um artigo grande na National Geographic. E é esta vertente que o Cyberpunk explora, mas de maneira bem pessimista: a degradação do ser humano diante da tecnologia, que é colocada num pedestal acima da própria humanidade.

William Gibson baseou-se no clima pessimista do punk para escrever Neuromancer. O personagem principal do livro é Case, um “pichador virtual” (na definição do próprio autor) que se utiliza de seu conhecimento de cibernética para realizar protestos contra a sistemática vigente das grandes corporações, sob a forma de vandalismo e por isso acaba sendo pego e impedido de acessar a Matrix. Sentiu o clima “punk” neste romance? Pois é! É por este motivo que este sub-genero da ficção científica é chamado de CyberPUNK: mistura histórias que falam da tecnologia cibernética com o clima niilista do movimento punk.

Em The Difference Engine a história se passa na Era Vitoriana. A Máquina Diferencial foi construída e, obviamente, tal invenção muda o mundo drasticamente, de forma política, econômica e social. No romance, o Império Britânico está num auge de poder jamais atingido no mundo real, utilizando a tecnologia dos computadores analógicos de Babbage. Os Estados Unidos estariam fragmentados e fracos, as outras potências cairiam diante da armada super-tecnológica britânica. E dentro do Palácio de Buckingham e do Parlamento Inglês, intrigas políticas perigosas ameaçam o futuro de toda a humanidade. Distopia e alta tecnologia em pleno século XIX. Isto é Steampunk!

…mas será que a galera que se diz fazer “Steampunk” sabe disso?

 

Steampunk de Butique!

Nem todas as obras ditas “Steampunk” merecem a palavra Punk no final, pois algumas são muito, digamos assim, “alegres”. Principalmente os animes baseados neste gênero – como Steam Detectives, de Kia Asamiya, ou mesmo o novo filme de Sherlock Holmes de 2009. Há sim, naturalmente, tecnologia poderosa e anacrônica nestas histórias e homens de grandes bigodes pomposos, além de mulheres em grandes e luxuosos vestidos e cientistas malucos com versões “à vapor” de iPods e outras tecnologias do nosso tempo. Porém, muitos destas obras se esqueceram daquilo que mais caracterizava este gênero no seu princípio: o niilismo. A degradação humana diante da tecnologia. A proximidade do Apocalipse. O PUNK propriamente dito.

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Então, se não é Steampunk, é o quê seriam? Uma classificação que também tem surgido muito por aí, embora confunda mais as pessoas, é “Steam Operas”. Lembra-se do que eu falei sobre a intimidade do gênero musical Punk e estas obras? Pois bem, agora esqueça Sex Pistols e pense em bandas como Yes e Emerson, Lake e Palmer cantando aquelas músicas longuíssimas sobre como tudo poderia ser bom e positivo no mundo? O Opera Rock? Pois é, Steam Operas são exatamente isso: histórias com muita tecnologia anacrônica no período vitoriano, mas com uma abordagem mais “leve” e positiva do mundo.

Mas o sufixo “Punk” ainda é atraente demais para ser jogado fora. E por que não acoplá-lo a outras palavras que remetam à outras épocas que não só a vitoriana ou contemporânea? É graças à esta abertura para se explorar este subgênero, que novos sub-subgêneros estão sendo criados à todo instante. Alguns interessantes, outros meio ridículos. Veja alguns exemplos (alguns retirados do blog Cidade Phantástica):

STONEPUNK: baseado na Idade da Pedra, onde os homens da caverna conseguem manejar coisas mais avançadas que simples lanças e tacapes. Um engraçadinho chegou a comentar que Os Flinstons poderia ser classificado como “StonePunk”. Forçada de barra, não é? Porém, obras em que os personagens seriam transportados, magicamente, para a época dos dinossauros também poderiam se enquadrar neste esquema, como Land of Lost e The Land That Time Forgot. E não… Parque dos Dinossauros já não se enquadrariam, porque, neste caso, foram os dinossauros que vieram para a nossa época.

BRONZEPUNK: histórias passadas em civilizações antigas, como a Mesopotâmia, a Pérsia e o Império Egípcio, onde a ciência, sobretudo a medicina, é muito mais avançada. Muitos classificam 300 de Esparta como um filme dentro deste gênero, embora não haja, exatamente, tecnologia futurista há boas doses de ficção e aventura, cujos fatos reais são moldados ao bel-prazer do diretor.

SANDALPUNK: passada na Roma e Grécia Antiga. Um subgênero que ganhou força especialmente após a descoberta do Mecanismo de Antikythera, uma espécie de computador primitivo datado de 150 antes de Cristo! Também pode abranger épocas mais “darks” da civilização Grega, principalmente, como na época das Invasões dos Dorians e, quando misturados com misticismos, a longa Guerra de Tróia. As Invasões bárbaras que trouxeram fim ao Império Romano, quando pinceladas por tecnologias “perdidas”, como o Fogo Grego, entre outros, também entram nesta linha. O gênero também é conhecido como “Classicpunk” ou “Ironpunk”.

CANDLEPUNK: baseado na Idade Média, onde pragas, cruzadas, fé cega e tecnologia convivem lado a lado. A alquimia é poderosa, porém herética, assim como outras ciências que, com muito custo, tentam sobreviver aos olhares poderosos da igreja. Mas não teriam os padres também suas próprias tecnologias avançadas escondidas em suas catedrais? O jogo de RPG Reinos de Ferro é um bom exemplo deste estilo, aonde não há apenas tecnologia futurista, mas também magia. O subgênero também é conhecido como “Castlepunk”, “Middlepunk”, “Plaguepunk” e “Dungeonpunk” – este último quando ocorre a adição de elementos mágicos.

CLOCKPUNK: se um terço das invenções de Leonardo da Vinci (só um terço…) tivessem sido construídas, o mundo seria MUITO diferente! Baseado na época Renascentista, mostra um mundo altamente tecnológico em pleno século XVI e XVII com soldados de arco e flecha disparando contra castelos em helicópteros e asa-deltas.

STEAMPUNK: o subgênero que amamos e já falamos tanto! Precisa de mais explicações? Também conhecido como “Gaslamp Fantasy” quando possui adição de elementos místicos. Um exemplo deste último gênero é O Castelo Animado, de Hayao Miyazaki.

DESERTPUNK: a época é a mesma que a do steampunk, mas se passa no velho oeste americano. Também conhecido como “Western Steampunk”, “Cattlepunk” e “Weird West”.

TESLAPUNK: se você nunca ouviu falar em Nikola Tesla, vá até a parede mais próxima e bata a cabeça nela algumas vezes. Eu espero… pronto? Pois bem, este cara não apenas é o responsável pelo fato do seu computador ligar, como também foi o grande rival do metido Thomas Edison. Tesla vivia em um laboratório onde descargas elétricas de milhares de volts sobrevoavam a sua cabeça enquanto ele, placidamente, lia um livro com a luminosidade das explosões: o modelo clássico do “cientista louco”, com suas máquinas faiscando por toda a parte e seu cabelo desgrenhado pela estática. Este subgênero, que leva seu nome, abrange a virada dos séculos XIX e XX, quando a eletricidade começou a ser distribuída para todo o mundo – e estranhas máquinas elétricas avançadas, como um tal de Raio da Morte, começaram a surgir…

14-BISPUNK: vamos fazer de conta que Alberto Santos Dumont foi o inventor do avião (porque, eu lamento muito, mas ele NÃO foi! Ou pelo menos não foi o único) e imaginá-lo como um inventor ainda mais genial do que foi em vida, conseguindo construir modelos de aviões que poderiam ser usados por todas as famílias do mundo, no lugar dos carros! É isso aí! Carros voadores no início do século XX!

DISELPUNK: passa-se principalmente na época do entre-guerras (décadas de 20 e 30), mas pode se estender até a nossa época, uma vez que nós ainda somos cativos do petróleo. Mostra os desastres terríveis – social, econômico e ambiental – que nossa sede por combustível fóssil pode nos levar. Nem precisa de detalhes, não é?

NAZIPUNK: subgênero que levanta a perturbadora hipótese (mas que esteve muito próxima de se tornar real) em que os nazistas teriam vencido a guerra: e os Estados Unidos e a Rússia seriam divididos entre o território germânico e japonês. Talvez com uma ajudazinha nossa, aqui do Brasil, afinal Getúlio era bem fascista… O livro “ Homem do Castelo Alto” é o melhor exemplo do que seria a vitória dos nazistas. Estilo conhecido também como “Blitzpunk”.

ATOMICPUNK: imagine um mundo onde nunca existiu uma Guerra Fria, mas simplesmente a Terceira Guerra Mundial entre Capitalistas e Comunistas… pegou?

TRANSISTORPUNK: mostra a galera dos anos 60 já com aparelhinhos portáteis nas orelhas, ouvindo The Who. Quando o combustível da galera começa a pesar mais pro lado da marijuana e do LSD, o subgênero muda de nome para “Psychedelipunk” e “Weedpunk”.

SPACEPUNK: tá demorando demais para o homem pisar em Marte, né? Neste subgênero não demorou tanto assim, e a galera já está no Planeta Vermelho desde os anos 70. Mas acho que os donos da casa não gostaram muito da invasão…

CYBERPUNK: este nós também já conhecemos! Cuidado! A Matrix está nos observando!

ELFPUNK: também conhecido como “Mythpunk”, mostra uma inversão de papéis: ao invés da modernidade invadir épocas antigas, são as coisas antigas que invadem a época moderna. Basicamente são criaturas místicas ambientadas num cenário futurista ou contemporâneo.

BIOPUNK: a partir dos anos 90 do século XX, com a manipulação genética em alta, o controle da biologia torna o mundo mais interessante. Parque dos Dinossauros seriam um destes exemplos.

NANOPUNK: num futuro distante, robôs menores do que células humanas dominam o mundo, fazendo serviços diversos para… para quem? Exterminador do Futuro poderia ser enquadrado no esquema Nanopunk, já que é deste material que o assassino do filme é feito.

BIONANOPUNK: quando as criaturas não são robôs, mas seres vivos de carne e osso, manipuladas desde as suas estruturas moleculares. Desta vez não é questão de manipular o DNA, mas cada átomo de carbono, um por um!

SPLATTERPUNK: une ficção cientifica futurista com filmes de horror. Só colocar um pouco mais de sangue e talvez umas criaturas míticas, como lobisomens e vampiros, no romance Neuromancer que você vai entender a parada.

NOWPUNK: nós não precisamos viajar para épocas diferentes para ver apocalipse. O planeta está morrendo com o desastre ambiental e o novo 11 de setembro pode cair em qualquer dia do mês.

E só para fugir um pouco de “punk” no final de todas as palavras:

CYBERPREP: o traidor do movimento cyberpunk, veio! Neste subgênero, as tecnologias de fato oferecem maior alegria, conforto e felicidade à humanidade! É o que nós, no mundo real, esperamos, claro. Mas seria otimismo demais…

RETRO-FUTURISMO: praticamente todos os gêneros de futurismo “antigo”, desde Julio Verne, passando por Metrópolis, até Os Jetsons, estariam enquadrados neste estilo. Mas a grande graça é a construção de uma ficção retro-futurista feitas nos dias de HOJE, como se tivessem feitas nos anos cinquenta. Por exemplo, nos anos sessenta acreditava-se que, no início do século atual, já teríamos carros voadores sendo vendidos para motoboy entregar pizza. Não chegamos a tanto, mas podemos fingir que chegamos!

HISTÓRIA ALTERNATIVA: quando os fatos históricos são mudados de propósito. Nazipunk seria apenas um exemplo.

CYBERNOIR: mistério e crimes típicos dos anos 40 e 50 e tecnologia do final do século XX se unem! Não, nem de longe seria algo como CSI, mas algo mais dark, como todo bom filme noir. As HQs 100 Balas e Sin City seriam alguns exemplos razoáveis.

NEW WAVE: uma visão positiva da tecnologia futurista. Aqui vamos todos acreditar que tudo vai dar certo no final.

Já falei demais! Mas aguardem que esta avalanche punk ainda não acabou! See ya!

Written by Jussara Gonzo

21 de março de 2014 at 16:05

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Written by Jussara Gonzo

17 de março de 2014 at 8:49

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Review: Vinland Saga

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Vinland-Saga-Editora-Panini

O senso-comum comete muitos erros quando tenta compreender o povo Viking. E são poucas as obras de fantasia que se preocupam em pesquisar mais a fundo estes homens e mulheres que ficaram conhecidos como bárbaros sanguinários. Entre capacetes com chifres, navios com cara de dragão e machados de duas lâminas, apenas a violência costuma ser representada quando falamos deste pequeno grupo de escandinavos.

O mangá Vinland Saga, de Makoto Yukimura, destaca-se como uma obra que mostra muito mais do que o habitual mundo de matar-pilhar-destruir que os vikings são inseridos. Sim, havia muitos salteadores e assassinos entre eles, mas não era uma porcentagem tão maior do que a de qualquer outro povo na época, como os francos e saxões. Havia entre os povos cunhados de “vikings” muitos fazendeiros, oleiros, ferreiros e pessoas que nada tinham a ver com a guerra.

Havia, inclusive, grandes exploradores.

Vinland Saga tem como personagem principal Thorfinn, um jovem guerreiro viking muito habilidoso que trabalha a mando de Askeladd, um mercenário e saqueador nórdico. Juntos eles fazem aquelas “coisas de vikings” que estamos acostumados, o que significa muita briga, muita luta e muita violência. Porém, apesar de serem ‘colegas’, Thorfinn nutre um grande ódio pelo seu comandante. Sempre o desafia para duelos com a intenção de vingar a morte de seu pai, Thors, que foi morto por Askeladd após uma manobra traiçoeira.

Porém, além deste jovem rancoroso, conhecemos, ainda no primeiro volume do mangá Leif Eriksson, ninguém menos do que tio de Thorfinn e o homem que descobriu o continente americano mais de 500 anos antes de Colombo. E a esta terra ele deu o nome de Vinland, um suposto lugar de paz e tranquilidade. Uma terra que parece mais um sonho distante na mente enevoada e tingida de ódio de Thorfinn, que vive apenas com o objetivo de matar Askeladd – mas este sonho não esmorece tão fácil.

A história começa quase despretensiosa: com doses razoáveis de humor e exageros, a obra parece bem distante do que poderia se esperar de uma história realista. As habilidades combativas de Thorfinn e Askeladd estão um nível acima de seres humanos normais (o que não é tão irreal assim, mas que deixa uma sensação pouco crível na leitura…), alguns personagens são cartunizados e até o traço muito “shonenzão” não ajuda muito.

Pegue como exemplo esta arte do primeiro volume:

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Quem olha pode achar que se trata apenas de uma história medieval de ação com doses de humor, bem típica dos mangás que a molecada lê (os já citados “shonen”). Algo leve e até simplório.

Mas a saga vai se transformando a medida que passa.

A cada novo volume a história começa a ficar mais pesada, mais violenta, mais trágica… O humor ainda existe, mas é oferecido em porções cada vez menores. Os detalhes de fundo histórico vão ficando mais acurados, mais presentes e o mangá começa a tomar forma de documentário. Por fim, a arte de Yukimura vai evoluindo a olhos vistos! Vai se tornando mais detalhada, menos caricata e mais imersiva! Como nesta página abaixo que vem dos volumes mais recentes do mangá publicados no Japão.

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Como podem ver, esta série tem dois lados: O lado “shonen” – brincalhão, despretensioso e cheio de “golpes mirabolantes’ a lá mangá de batalha. E o lado “seinen” – um roteiro mais sério, arte mais taciturna e batalhas mais realísticas.

Sobre a edição da editora Panini: merece meu elogio! O papel é de qualidade (e tem cheiro bom!), a capa está muito bem colada e temos até belas páginas coloridas! Não detectei nenhum grande erro de ortografia ou gramática, nem letras fora dos balões. Tudo muito bonito!

Vinland é uma saga que vai surpreender você, sobretudo nos próximos volumes!

EDITORA: Panini Comics

PREÇO: 11,90

AVALIAÇÃO: Primeiro volume muito bom… e vai ficar cada vez melhor, acreditem!

Written by Jussara Gonzo

13 de março de 2014 at 1:03

Publicado em REVIEW

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Descomunicadores 16

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Written by Jussara Gonzo

11 de março de 2014 at 20:08

Publicado em DESCOMUNICADORES

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