Quadrinhos Gonzo

HQ.EXPERIMENTAL@GMAIL.COM

Matéria/Resenha Gonzo: Semos (sic) Inútil/ Transmetropolitan

com 6 comentários

Por que você é jornalista?

Você já teve a sensação de ser uma pessoa completamente inútil? Sério mesmo… inútil! Você não acrescenta nada à ninguém, nada à sociedade. Se as pessoas nunca tivessem te conhecido, não faria diferença…

Esta sensação recai principalmente aos ociosos e desempregados. Ficar sem fazer nada é maravilhoso… por um certo tempo! Chega uma hora que aquela culpinha capitalista de TER que trabalhar, TER que ser útil, TER que falar para as pessoas a sua profissão (qualquer que seja) bate à porta – ou então quem bate à porta primeiro são as dívidas. Geralmente, depois que você consegue um emprego, essa sensação de inutilidade desaparece. Afinal de contas, quando você trabalha, você está realizando uma tarefa e não está sendo tão inútil assim, certo?

Errado.

Como cheguei a comentar no OFF da minha primeira resenha, estou trampando com uma coisa que não tem nada a ver comigo. Mas é aquela coisa… TEM que trabalhar, enquanto não exercer a profissão que você sonha. Tudo bem, eu aceitei sem demora, pois pior do que as dívidas era a sensação de inutilidade que eu sentia por estar em casa. Mas qual a minha surpresa ao perceber que a maldita sensação CONTINUA! Firme e forte!

Eu tento me ludibriar e pensar: “Não, não, não, eu ESTOU fazendo algo! Algo importante!” Bem, eu trabalho numa área que é tipo/quase/meio que RH, e todos sabemos que o ÚNICO motivo do RH existir é porque a maioria das pessoas responsáveis pelas empresas não quer chegar nem perto dos famigerados que estão disputando seus empregos mequetrefes! O cara do RH é apenas o sádico que vai intermediar a contratação, fazendo perguntas estranhas, como “que animal você gostaria de ser?” e “você conseguiria trabalhar sobre pressão?” Puta merda… NINGUÉM consegue!

Seja como for, a sensação de inutilidade tem se mantido, pelo menos, estável em seu nível de “auto-depreciação moderada”. Só que ontem, segunda-feira, dia 17 de janeiro, ela atingiu seu pico porque… bem… eu não pude trabalhar! E por quê? O sistema caiu.

Sistema de Merda!

“O Sistema Caiu!”

Quantas vezes você já foi a bancos/agencias/escritórios/whatever resolver alguma pendenga séria, alguma coisa urgente, e não conseguiu porque “O sistema caiu”? Ah! Que BOM se fosse verdade no sentido sócio-economico da coisa!

O SISTEMA CAIU! Perdeu, preibói! Todas as leis que antes funcionavam (mal) não funcionam mais! Este sistema que corrói nossas vidas e nos anestesia com coisas supérfluas caiu! A VELHA ORDEM ACABOU!!! Todo mundo se livrando do tênis Converse, da blusinha Lacoste, do computador da Apple e cuspindo este café horrível da Starbucks! A vida que você conhecia antes não existe mais, e agora nós vamos…!

Ah, que bom se fosse verdade!

Anyway, “o sistema cair” é o tipo de coisa que te deixa puto da vida, certo? Principalmente se for ao telefone, tentando cancelar alguma bosta de serviço. Pois eu lhes digo: NÃO é culpa do atendente do balcão, nem da telefonista. O sistema cai MUITAS vezes não porque essa gente adora fazer charminho ou birra (tá, algumas vezes sim…), mas porque realmente ele “cai”. Os verdadeiros culpados são estes putos dos engenheiros de TI, que parecem fazer estes tais sistemas para caírem de PROPÓSITO! E para piorar NUNCA tem um destes “profissionais” disponíveis quando você precisa!

Eu trabalho num lugar onde usamos um destes tais “sistemas”, e exceção é dia em que ele não dá algum probleminha. Às vezes é coisa de minutos, às vezes leva uma hora para consertar. Mas ontem o sistema despertou problemático, e só voltou quando faltava meia hora para eu sair do trabalho. Alias, QUE trabalho? Sem o sistema eu não posso trabalhar.

Resumo da opereta: ontem eu praticamente não trabalhei.

Que bom, né? Que bom NADA! Se tem uma coisa que eu odeio mais do que trabalhar numa coisa que eu não gosto, é não fazer NADA! – a sensação de inutilidade atinge o pico! – Felizmente, no prédio onde se encontra a minha empresa, tem umas lojinhas no térreo. Uma delas é uma papelaria. Peguei umas folhas de sulfite, um lápis e fiquei desenhando por lá… desenhando… mas o escritório não é um ambiente muito preparado para atividades artísticas e ficar com colegas pescoçando seu desenho a cada cinco minutos é bastante desagradável também!

Por fim, quando deu meio-dia, pude sair para almoçar. Quarenta minutos era o tempo máximo do meu break. Mas eu pensei: “Foda-se!” e os quarenta minutos viraram duas horas. Sendo que uma hora e meia eu gastei na Livraria Cultura.

Ossos do Ofício

Achados e Desencavados

Dá para você desperdiçar uma longa vida na Livraria Cultura da Avenida Paulista! (não, não estou recebendo um centavo pelo merchan) Foi lá que eu afoguei as minhas mágoas, garimpando aquelas estantes de livros uma por uma. Sabe como é o Paraíso? Bem, eu tenho a crença particular que o Paraíso é diferente para cada tipo de pessoa. O meu seria uma Livraria Cultura eterna! Atualizada todos os dias com novas obras dos meus escritores favoritos – os falecidos, que também estariam lá para intermináveis sessões de autógrafos. Com uma lojinha de Frozen Yogurte de um lado e um Rei do Mate do outro. (não, eu REALMENTE não estou ganhando pelo merchan! Juro!).

Vasculhando aquelas centenas de milhares de livros, a primeira hora passou voando. Logo percebi que, apesar de tudo, eu TINHA que voltar para o trabalho um dia. Ou melhor, naquele mesmo dia. Então, para economizar tempo, fui direto para a parte de História em Quadrinhos da livraria, onde eu encontraria com mais rapidez coisas que me apetecessem. E foi lá, olhando para todos aqueles lindos tomos coloridos e importados que eu pensei: “Que merda ser pobre!”.

Enquanto eu segurava nas mãos uma edição importada de um mangá chamado REAL, tamborilando meus dedos sobre ela e pensando se eu devia começar a coleção, corri meus olhos pelas lombadas dos encadernados de quadrinhos americanos. Não sou grande fã de quadrinhos vindo dos Estados Unidos, até porque a grande maioria é de super-heróis. Claro, existem outras coisas maravilhosas, como Sandman, Bone, Estranhos no Paraíso e Planetary, entre outros, mas 70% dos meus títulos favoritos são europeus ou asiáticos. Porém, tive que parar minha vistoria quando vi, escondido entre um encadernado do Capitão América e outro de Mortos-Vivos (o duro desta parte da Livraria Cultura é a organização…) uma das preciosidades vindas dos nossos primos-ricos.

Era o primeiro volume de Transmetropolitan.

Pego de calça curta!

“Não tenho que agüentar essa merda! Eu sou um Jornalista!!!”

Há muitos, MUITOS anos atrás, quando o segundo milênio ainda respirava e as Torre Gêmeas ainda estavam de pé, lembro de ter ido até a casa da minha irmã, recém-formada em jornalismo, para uma visita. Entre aqueles livros engraçados que ela tinha, havia uma revista de quadrinhos. Achei aquilo bem estranho, pois para mim adultos não liam quadrinhos.

Eu ainda estava lendo aqueles gibis do Batman da Editora Abril, e de vez em quando alguma Turma da Monica. De mangá, só havia Ranma nas bancas, e algumas revistinhas informativas jocosas. Aquele gibi, no entanto, era diferente de tudo. E marcaria, para mim, a grande transição de minhas leituras de banda desenhada. Uma história que eu guardaria para sempre no meu coração como uma das minhas favoritas…

Não, não era Transmetropolitan.

Era Sandman – que, naquela época, estava começando a ser relançado pela extinta editora Metal Pesado. Foi naquele momento que eu fui lançada no universo Vertigo – o braço, digamos assim, “adulto” dos quadrinhos da mesma editora do Batman, a DC Comics. A partir dali, História em Quadrinho para mim teria outra conotação. Foi uma época muito boa este entre-milênios para a minha leitura – tanto de quadrinhos como de livros. E enquanto eu lia Sandman, comecei a me dedicar a procurar outros grandes títulos de quadrinhos adultos.

E, mais ou menos na mesma época, chegou o primeiro número de Transmetropolitan ao Brasil.

O título conta a história de Spider Jerusalem, um jornalista e escritor de Best-sellers que vive enclausurado em uma montanha numa vida perfeita, longe das pessoas, apenas com seus discos, livros e seus baseados. Mas tudo muda ainda na primeira página, quando seu antigo editor liga exigindo que ele entregue outros dois livros que ele prometeu escrever em contrato. Sem idéias para escrever e com advogados e policiais na sua cola, Spider não tem outra escolha a não ser voltar para a cidade e começar a escrever estes livros. Uma cidade pra lá de louca!

O lugar é uma caricatura de uma distopia cyperpunk. Maquinários futuristas (ou aparentemente futuristas, contendo um ranço do que se achava que era “moderno” nos anos 80), gangues de visual extravagante, drogas por toda a parte, sujeira, perdição, podridão e política. Uma fossa da civilização: local ideal para qualquer escritor apocalíptico se inspirar. Armado com pistolas, granadas e até um lança-foguete, nosso herói abre caminho em meio ao caos e encontra um velho amigo jornalista. Como precisa de emprego enquanto as idéias para os livros não vêm, Spider arranja um trabalho como colunista no jornal onde seu velho amigo é editor. Começa a loucura…

Esta revista rendeu, no Brasil, três números, que correspondem ao primeiro arco de uma epopéia lisérgica, regada com altas doses de ficção científica e devassidão. Logo de cara qualquer entendido de jornalismo saca que a inspiração para Spider Jerusalem (ou pelo menos uma delas) foi o nosso amigo Hunter S. Thompson, o pai do Jornalismo Gonzo – sujeitinho amalucado e perigoso, que realmente andava armado por aí antes de fazer suas matérias mais perigosas (se eu fosse ele, também puxaria o cano para certos entrevistados!).

"Me dê a porra da entrevista, seu merda!"

Back on the Street

Seja como for, assim que vi este volume na minha frente, peguei-o sem demora. Corri até o caixa (até porque já era mais de duas da tarde) e paguei salgadinhos R$ 34,33.

Este primeiro volume contém as seis primeiras edições de uma epopéia que, nos Estados Unidos, foi publicada até o número 60. No Brasil, depois da falência da Metal Pesado, aparentemente nenhuma editora mais se importou em trazer o restante das aventuras do jornalista louco. Uma pena! Deste modo, se alguém quiser acompanhar as aventuras de Spider Jerusalem, terá que garimpar muito! E provavelmente encontrará o material apenas em inglês.

Tudo bem, tudo bem! Vale a pena!

Lendo este único volume de Transmetropolitan eu aprendi 25 novos palavrões em inglês! Sem falar que serviu de catarse para que eu extravasasse um pouco a minha raiva daquele dia… alias de todos os dias! Além disso pude acompanhar as histórias com uma nova visão. Afinal de contas, quando peguei Transmetropolitan para ler, há dez anos atrás, fiquei muito impressionada por causa dos palavrões, da violência e tal. E qual não foi a minha surpresa ao ficar, novamente, impressionada com a revista, mas por outros motivos!

Spider Jerusalem é o jornalista que TODO jornalista gostaria de ser. Tem contatos quentes, conhece as pessoas, provoca as pessoas, não leva desaforo para casa e tem porte de arma. E mais: possui uma mente ferina e dedos ágeis que tecem as colunas mais loucas sobre os assuntos mais bizarros. Só neste volume ele escreveu sobre uma colonia de humanos que, modificando seu DNA, pretendiam se transformar em alienígenas… fez gato e sapato de um presidentezinho corrupto… assistiu mais de DOIS MIL canais de televisão para mergulhar fundo na podridão humana e, por fim, sacaneou geral com diversas religiões pilantras!

Enfim, enfrentou “inimigos comuns” à qualquer jornalista.

Se você é fã de quadrinhos, certamente caçar Transmetropolitan por onde puder. Se você não é fã, certamente vai virar quando ler esta preciosa peça. Diabos! Se você for jornalista TAMBÉM vai adorar! Mesmo que não ligue para quadrinhos.

Ah… quer saber como foi o resto do meu dia?

Cheguei em casa e não pude ler minha revistinha de pronto. Tive que ir ao dentista e depois ajudar a terminar de empactoar as coisas aqui em casa para a mudança que irei fazer esta semana. Tudo um caos. Tudo desarrumado. Tudo bagunçado… senti-me como o próprio Spider ao chegar na cidade futurista nojenta!

Para piorar, quase intoxiquei-me com o pó de artefatos ancestrais que estavam guardados no fundo de baús e armários (artefatos velhos e inúteis), incluindo uma boneca de um metro de tamanho (conhecida como “Amiguinha”) que era da minha irmã. Embrulhada em saco preto, parecendo um cadáver de Teresópolis, esquecida no fundo das tranqueiras. DEPOIS disso é que, enfim, pude terminar de ler o volume e escrever esta resenha só para o blog não ficar às moscas esta semana.

Tô cansada e suja de poeira. E não consigo nem encontrar a porra da minha escova de dentes. Como eu queria ATIRAR em alguém agora! Nem que fosse uma bolinha de papel…

Hunter Thompson: A semelhança NÃO é mera coincidencia

Escrito por Jussara Gonzo

18 de janeiro de 2011 às 0:40

6 Respostas

Assinar os comentários com RSS.

  1. Na verdade, Transmetropolitan chegou a ser publicada pela Brainstore depois que a Metal Pesado (e suas sucessoras Fractal e Atitude) fechou as portas. A editora ainda publicou outros títulos Vertigo, como Sandman, Preacher e Hellblazer, antes de fechar as portas deixando TODOS incompletos, incluindo Transmetropolitan (que, se eu não me engano, foi interrompida no equivalente à 14ª edição americana).

    Cleriston

    23 de janeiro de 2011 em 21:31

    • Ah!

      Eu achei que a Brainstore fosse a própria Metal Pesado (e Fractal e Atitude) e que Transmetropolitan tinha sidoapenas anunciado em sua continuação.

      My mistake!

      Jussara Gonzo

      26 de janeiro de 2011 em 9:39

  2. Depois que eu li o seu post, achei que ele � �timo. A maioria das informa��es definitivamente s�o de alta qualidade. Artigos como este fazer valer a pena um website

    Atos Silva

    28 de abril de 2011 em 11:13

  3. [...] Semos (sic) Inútil/ Transmetropolitan [...]

  4. [...] Novo baixei (não façam isso em casa, crianças. É pirataria!) uma série em quadrinhos chamada Transmetropolitan para eu ler. A revista acompanha a vida de um repórter, em uma cidade que nunca é nomeada, em um [...]


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 395 other followers