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Matéria Gonzo: King’s Quest – The Silver Lining

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Livros e narrativas orais têm sido, durante milênios, as grandes mídias dos contadores de histórias. Músicas e danças traziam contos embuídos no som e no movimento e até mesmo uma simples pintura ou uma estátua podia passar muita informação a cerca de lendas e acontecimentos diversos. Depois veio a fotografia, o cinema, a televisão e as histórias em quadrinhos como mídias dos contadores de histórias, e, muitos séculos antes, o teatro, não nos esqueçamos! As formas de arte usadas para se mergulhar no universo alheio e repensar o seu próprio.

Até o final do século XX.

Neste período tão efervescente de cultura e informação, uma nova mídia surgiu: os jogos eletrônicos, a décima arte que, por enquanto, ainda não foi seriamente decretada como tal. Os chamados vídeo games foram, a princípio, muito subestimados pelos intelectuais que os consideravam apenas um passatempo da moda para crianças (da mesma forma que a fotografia, o cinema e, até hoje, as histórias em quadrinhos, foram subestimadas).

Hoje temos cinquentões e infantes de cinco anos jogando juntos uma partida de Winning Eleven. Vemos um grupo de amigos que sai toda sexta para beber e jogar Street Figther IV na casa de um deles. Temos críticos de cinema babando pelo enredo cinematográfico de um Heavy Rain. Nas livrarias existem vários romances baseados em jogos como Assassin’s Creed.  Hoje os vídeo games estão pouco a pouco deixando de ser uma brincadeira de criança para se tornar uma forma de entretenimento séria, assim como a literatura - a mais básica de todas as casas dos contadores de histórias.

Esta matéria, que irá falar do renascimento de um dos meu jogos de infância favoritos, será apenas a primeira sobre games aqui no Quadrinhos Gonzo. E foda-se se parecer off-topic demais! Jornalistas também jogam video-game, não é mesmo?

A matéria a seguir foi inicialmente feita por mim para a revista FARRAZINE. Hoje estará um pouco mais incrementada com links e videos. Aprecie:

A Busca do Rei

O reino de Daventry está em perigo. Outrora um dos mais prósperos países do mundo, hoje é apenas uma sombra pálida do que era antes; fraco, empobrecido e ameaçado. Seu atual regente, Rei Edward, está velho, sem forças para reerguer sua nação e sem herdeiros para dar continuidade à linhagem real. Precisando com urgência de um candidato à sucessão do trono, a solução é nomear um dos cavaleiros do reino como novo regente. Entre os favoritos de Edward está Sir Graham, de origem humilde, porém corajoso, bom e justo. Mas a coroa não deve ser entregue tão fácil: Sir Graham deve vagar pelo reino à procura de três tesouros perdidos. Se tiver sucesso em sua missão ele será o novo rei de Daventry.

Foi com este enredo que, no longínquo ano de 1984, o primeiro jogo da série King’s Quest foi lançado. A série, criada por Roberta Williams, tornou-se uma das mais bem-sucedidas do mundo dos games da década de 80, somando 8 títulos e vendendo mais de sete milhões de cópias.

Desde então um longo caminho foi trilhado. King’s Quest se tornou uma das séries mais queridas por uma das primeiras gerações de jovens criados na frente de um computador. Encerrada há mais de dez anos, sua epopéia acaba de ganhar um novo alento com seu novo título não-oficial: “The Silver Lining” um dos fangames (jogos feitos por fãs) mais ambiciosos e comentados de todos os tempos.

É bastante provável que você não conheça esta série. Então acompanhe à seguir a matéria especial que detalha todos os passos desta grande epopéia dos Adventures Games. E você que já a conhece, prepare-se para relembrar de King’s Quest. Até hoje uma das mais aclamadas séries do gênero e cult total no Brasil.

A Gênese de um Gênero

O site ADVENTURE GAMERS elegeu os 100 melhores Adventure Games.

 No final da década de 70, Roberta Williams, futura mãe da série King’s Quest, era uma jovem programadora de sistemas. Casada com Ken Williams, o casal compartilhava seu amor pela computação, jogos eletrônicos (ainda em gênese) e, sobretudo, histórias.  

Naquela época, Roberta acabou se tornando fã de um jogo chamado Colossal Cave Adventure (ou apenas Adventure como ficou mais conhecido – e cuidado para não confundir com outro jogo clássico do Atari homônimo). Criado pelo programador e espeleólogo William Crowther, o jogo inaugurou a era dos assim chamados Adventure Games – jogos cuja ênfase é focada no enredo, exploração do cenário, narrativa e quebra-cabeças.

Sem gráficos, o jogo era constituido apenas de texto corrido, onde o jogador deveria digitar “Yes” ou “No” diante de opções como “Pegar Objeto” ou “Entrar na Caverna” ou “Pular no buraco” entre outras – limitadas à pouco mais de duas opções. Cada uma delas levava à uma situação diferente, que poderia deixar o jogador cada vez mais perto do sucesso da missão ou da morte. O jogo foi lançado em 1976 e tornou-se uma lenda entre os programadores da época, inspirando a primeira geração de criadores de jogos de aventura.

Roberta, entusiasmada com Colossal Cave, resolveu criar o seu próprio jogo. Em 1980, lançou Mystery House, pela sua recém-criada companhia On-Line Systems. O jogo tornou-se um marco como o primeiro Adventure Game com gráficos (que nada mais eram dos que desenhos quase infantis desenhados com linha branca num fundo negro, mas era o máximo que a tecnologia podia oferecer na época), cujo enredo era simples: o jogador era um dos oito hóspedes numa antiga mansão Vitoriana. A medida que o tempo passa, as pessoas vão morrendo uma a uma e o jogador precisa descobrir quem é o assassino antes que chegue a sua vez. O jogo tornou-se um sucesso e abriu caminho para outros do mesmo estilo.

Nos anos 80, os Adventure Games eram a maioria, representando mais de 50% de todos os jogos vendidos no mercado norte-americano (hoje correspondem à apenas 6%). No entanto, embora houvesse títulos diversos pipocando, inclusive sub-gêneros como as Novelas Visuais (que ainda são muito populares no Japão, onde correspondem à 70% de todos os jogos produzidos no país), nenhum deles foi bem-sucedido o suficiente para gerar muitas sequencias ou se tornar uma série. Isso estava para mudar.

Naquela época, enquanto a maioria dos jogos eletrônicos era produzida por apenas um programador que não gastava mais do que algumas semanas de (muito) trabalho, Roberta decidiu criar um dos projetos mais ambiciosos do seu tempo. Unindo seis programadores trabalhando em tempo integral durante 18 meses, ao custo final de 700 mil dólares (uma fortuna na época), ela deu origem ao jogo que a alçaria ao posto de Rainha dos Adventures: era King’s Quest.

IBM PCjr - sim, dava para jogar video game nisso aí...

O lançamento ocorreu em 1984. O jogo era compatível com o novo computador pessoal IBM PCjr (muito antes de surgir o próprio sistema Windows) e posteriormente para o Tandy e o Apple II, considerados, na época, equipamentos de ponta. Cheio de inovações, King’s Quest foi o primeiro Adventure Game com gráficos animados e coloridos (exigia o monitor EGA de 16 cores), numa época em que computadores de monitor preto-e-branco, com memória de 64 KB, eram considerados modernos.

O protagonista da aventura era Sir Graham, jovem cavaleiro com uma importante missão. Ele deveria vagar pelo reino (não muito grande, formado basicamente por apenas 16 cenários diferentes) em busca dos três tesouros perdidos de Daventry: o Espelho Mágico, a Arca do Tesouro Inesgotável e o Escudo Invencível. O enredo era fortemente influenciado por contos-de-fadas, com distinções bem claras de mocinho e bandido. Em sua busca pelos três tesouros, Sir Graham enfrenta bruxas, anões perversos e até um dragão! No entanto também recebe a ajuda de sua fada-madrinha, elfos gentis e um gnomo que oferece itens úteis, contanto que o cavaleiro descubra o seu nome.

O personagem movia-se na tela livremente, podendo esconder-se atrás dos arbustos, ir para cima ou para baixo no cenário e até nadar, numa movimentação mais avançada que nos games de Arcade (cujo personagem podia mover-se apenas na horizontal). Graham era controlado através dos comandos de texto do jogador, como “Ir para a direita”, “Pegar faca”, “Abrir porta”, “Falar com Lenhador” entre outros, num leque bem mais variado que os limitados “Yes” ou “No” dos Text-Adventures anteriores (como ficariam conhecidos depois da criação dos primeiros adventures com gráficos).  

O jogo tornou-se uma sensação, recebendo alguns anos depois versões para Atari, Amiga e Sega Master System. E era apenas o começo.

As Novas Aventuras

Após uma recepção positiva, Roberta começou a trabalhar na sequência de King’s Quest. Sua produtora, On-Line System mudou de nome para Sierra, tornando-se uma das mais bem-sucedidas empresas de jogos para computador nos anos 80 e um nome mítico dentro do terreno dos Adventure Games; lançando, no decorrer da década, outras séries de sucesso como Gabriel Knight, Space Quest, Police Quest, Quest For Glory, Leisure Suit Larry, Phantasmagoria, entre outros.

Em 1985 o segundo jogo da série, King’s Quest: Romancing the Throne, foi lançado. Trazia novamente como protagonista Graham, agora com a coroa sobre a cabeça. Porém, apesar de toda a glória, ele é um regente solitário, sem uma noiva. E uma rainha é necessária para evitar que aconteça o mesmo que aconteceu com o rei Edward, que acabou não deixando um herdeiro. Refletindo sobre o peso da solidão e de suas obrigações em frente ao Espelho Mágico, o vidro repentinamente começa a faiscar e revela para o jovem rei a imagem de uma moça muito bela, porém muito triste. A moça, chamada Valanice, está presa numa torre em um lugar desconhecido. Apaixonando-se à primeira vista, Graham decide ir em busca desta donzela, salvá-la e torná-la a sua rainha.

O segundo jogo foi lançado no ano seguinte ao primeiro e por isso não trouxe nenhuma grande inovação tecnológica em relação ao seu antecessor. Deu apenas tempo para que os fãs, da qual muitos ainda tinham que usar versões “fracas” do jogo devido aos seus monitores preto-e-branco, atualizarem suas máquinas para poderem jogar os dois títulos em toda a sua potência. A história continuava a girar em torno do eixo: “busca por algo” e mais uma vez a dicotomia mocinho/bandido. Apesar da falta de novidades, King’s Quest: Romancing the Throne fez sucesso e permitiu a continuidade da série.

No ano seguinte, em 1986, o terceiro título foi lançado: King’s Quest III: To Heir is Human. Trazia como protagonista um jovem chamado Gwydion, tratado como escravo por um mago cruel que reina com tirania sobre o reino de Llewdor. A novidade desagradou aos fãs que esperavam uma nova aventura do rei Graham, porém a ligação entre os dois personagens só seria revelada no final do jogo: Gwydion era, na verdade, o jovem príncipe Alexander, sequestrado ainda bebê do reino de Daventry – origem que o próprio rapaz desconhecia. 

Considerado até hoje o jogo mais difícil da série, King’s Quest III trazia enigmas bem mais complicados que os dois primeiros títulos, o que acabou frustrando muitos jogadores; principalmente na hora do personagem realizar magias para tentar escapar do julgo do mago tirano: feitiços longos que tinham que ser digitados sem erro nenhum, linha por linha, do contrário os efeitos iriam matar o personagem instantaneamente. E esta não era a única dificuldade: Gwydion tinha que subir e descer escadas perigosas, dos quais frequentemente caía e morria; os gráficos pobres faziam o jogador irremediavelmente acabar pisando em falso, sem falar que certos objetos ficavam simplesmente irreconhecíveis devido à pouca quantidade de pixels para defini-los.

King's Quest 3: Em 1986 eram bons gráficos!

Havia também um contador de tempo que exigia que o jogador realizasse algumas ações nos minutos pré-determinados (principalmente nos momentos em que o mago não estava em casa) e caso um único segundo estourasse, tudo estava perdido. A pressão era tanta que muitos jogadores desistiram deste título, esperando quase uma década até que pudessem ter acesso à Detonados (Walkthroughs) detalhados para enfim descobrirem passo-a-passo o que precisavam fazer para chegar até o final.

Após receber todas as críticas construtivas (e bem ou mal, recebendo os dividendos do bom desempenho comercial do jogo), Roberta começou a produzir o quarto título da série, considerado um dos mais bonitos graficamente, levando em conta as limitações tecnológicas da época.

Em 1988, é lançado King’s Quest IV: The Perils of Rosella. O novo título trazia como personagem principal a princesa de Daventry: Rosella, filha do rei Graham e da rainha Valanice, e irmã gêmea de Alexander, o infeliz protagonista do jogo anterior. Logo após a volta do filho perdido, o rei Graham decide se aposentar como aventureiro; pois encontrar seu herdeiro era a última missão que ele se prometeu realizar. Decide entregar o seu icônico chapéu para um dos dois filhos. Porém, durante a cerimônia, ele sofre um ataque do coração. Atendido pelos curandeiros do castelo, descobre-se que o rei possui uma doença grave e incurável. Ele não viverá muito tempo.

Após a terrível descoberta, a princesa vai chorar na sala do trono, onde está o Espelho Mágico. Sozinha com sua tristeza, Rosella lamenta o destino do pai. Subitamente ela escuta uma voz chamando-a para dentro do espelho. A voz pertence à Genesta, a Rainha das Fadas do reino de Tamir. Ela oferece à princesa uma chance de salvar o seu pai, caso ela ajude a fada à recuperar seu talismã, roubado pela maligna Lolotte. Rosella aceita a proposta e embarca numa perigosa viagem para uma terra estranha e desconhecida em busca de uma esperança para seu pai e para a bondosa fada.

Os gráficos neste quarto jogo tiveram uma melhora surpreendente. Com uma alta resolução de vídeo (para a época) de 320×200, maior clareza de detalhes e muito mais cores, King’s Quest IV encantava visualmente. Também foi um dos primeiros a ter suporte para placas de som potentes, apresentando aos ouvidos dos jogadores sons ambientes mais convincentes e uma trilha sonora mais suave, diferente dos “beeps boops” estourados comuns nos jogos antigos (sabe o sonzinho do Atari? Pois é). Outra inovação foi a mudança de “tempo” no cenário, que podia clarear durante o dia, ficar mais escuro à tarde e por fim anoitecer.

King’s Quest IV também foi a tentativa de trazer mais meninas para o mundo dos games, naquela época uma ínfima minoria. A protagonista Rosella era carismática e agradou aos fãs, que ficaram contentes em enfim ver uma personagem feminina mais decidida na série, ao invés das costumeiras princesinhas à espera do seu herói. Após críticas positivas, Roberta começou a elaborar o quinto jogo da série. E este certamente deixaria todos os fãs boquiabertos.

O Apogeu

Em 1990, um pouco antes do lançamento do quinto jogo, a Sierra lançou um remake do primeiro King’s Quest, rebatizando-o como King’s Quest I: Quest for the Crown. Os gráficos agora estavam melhorados, num nível semelhante ao do quarto jogo da série. Infelizmente os resultados comerciais não foram bons, pois no início da década os jogos começavam a ficar cada vez melhores graficamente e a Sierra perigava ficar para trás. Mas ela recuperaria seu status com o quinto título da série; King’s Quest V: Absence Makes the Heart Go Yonder.

Neste quinto jogo, temos de volta o nosso personagem original, Graham, agora recuperado da sua doença após a aventura bem-sucedida de sua filha em Tamir. Feliz ao lado de sua família, em seu próspero reino, o rei curte a calma e a tranquilidade de uma tarde de verão, caminhando pelas colinas e colhendo flores. Porém, quando ele volta para casa, percebe que ela não existe mais. Seu castelo foi roubado! E sua família desapareceu com ele. A partir daí ele começa a mais fantástica aventura da série King’s Quest até então.

A primeria revolução deste título começa já na maneira como foi distribuído: em CD. Nunca antes nenhum jogo havia sido distribuído em CD antes (apenas em disquetes ou cartuchos, no caso dos jogos de console). Isso se fazia necessário devido à enorme quantidade de conteúdo que King’s Quest continha. Os gráficos agora exigiam o sistema VGA de 250Kb de Video, resolução de 640×480 e 256 cores. Avanços fenomenais para a época. O sistema de som era o MIDI, permitindo ouvir com clareza a voz dos atores – sim, agora todos os personagens têm fala! Os cenários eram majestosamente pintados à mão e depois digitalizados. Foi considerado o mais cinematográfico jogo de sua época, batendo recordes de vendagem e recebendo muitos prêmios.

O sistema agora não se baseava mais em ações de texto, mas sim na interface “Apontar e Clicar” que se tornaria uma das mais utilizadas em Adventure Games deste então. Não era mais preciso digitar “Pegar a Pedra”, bastava clicar em cima dela e Graham a pegaria. Isso tornava o jogo muito mais simples e eliminava, em parte, a barreira do idioma que tornava os Adventures tão difíceis de vingarem em países de lingua não-inglesa, uma vez que traduções não eram comuns.

Esta foi considerada a Era de Platina de King’s Quest e da própria produtora Sierra. Com jogos cada vez melhores, aliado ao crescente número de pessoas que compravam computadores no início dos anos 90, as vendas estouraram. Porém o jogo que seria considerado a grande obra-prima da série viria apenas depois. 

King's Quest VI: minha primeira experiencia com a série. COMO eu sofri para fechar esse jogo!

Em 1992, Roberta lançou o título que, quase por unanimidade, é considerado o favorito dos fãs da série: King’s Quest VI: Heir Today, Gone Tomorrow. Temos como protagonista o Príncipe Alexander. Durante os eventos do jogo anterior, o príncipe conheceu uma jovem chamada Cassima. Não tendo tempo dos dois conversarem melhor, cada um vai para um lado. Mas o rapaz não se esquece dela. E durante meses envia mensageiros e batedores para todos os reinos na chance de encontrá-la. Sem resultado. Um dia, enquanto estava na sala do trono, Alexander escuta a voz de Cassima pedindo ajuda pelo Espelho Mágico (de novo!) – o mesmo que revelou ao seu pai o paradeiro de Valanice, anos atrás. Por fim ele consegue uma pista: Cassima é a princesa da terra das Green Islands e o jovem parte em sua busca por este reino desconhecido no oceano sem fim. Porém, no meio do caminho, seu navio é atingido por uma tempestade e Alexander é carregado pelas ondas, sobrevivendo por um milagre. E acaba chegando ao seu destino.

Na ocasião do lançamento os gráficos eram basicamente idênticos ao quinto jogo. Porém, uma versão mais avançada de King’s Quest VI foi lançada em 1993, também em CD, contendo melhorias tecnológicas e uma abertura do jogo renderizada em 3D, algo raro na época – sem falar em retratos mais bem-feitos dos personagens. É o primeiro jogo da série contendo dois caminhos diferentes para o final: ambos felizes, mas um mais feliz do que o outro. O jogo também trazia um pequeno livreto chamado “Guia das Green Islands”, uma espécie de diário de um aventureiro do passado detalhando cada uma das ilhas deste reino misterioso, contendo preciosas dicas para que o jogador consiga resolver os enigmas e chegar ao final do jogo. A versão de 1993 também foi a primeira a utilizar a plataforma Windows para rodar e não o DOS.

Atingindo o apogeu com o sexto título da série, a partir de então King’s Quest começou a sua viagem para baixo, da qual ela nunca mais voltaria…

 A Decadência

Muitos consideram que o início do fim de King’s Quest começou com o sétimo jogo: King’s Quest VII: The Princeless Bride lançado em 1994, em plena comemoração de 10 anos da série.

Na história, temos pela primeira vez a Rainha Valanice como protagonista, embora ela divida este papel com Rosella, sua filha. Na história, a mãe zelosa tenta convencer a filha que o casamento é importante – até para permitir a sucessão ao trono de Daventry (já que Alexander, ao final do sexto jogo, casa-se com Cassima e se torna o rei das Green Islands). Rosella não concorda, pois ela deseja se tornar uma aventureira.

Caminhando ao lado de um lago, a princesa é surpreendida por uma estranha fada que salta da água. Pulando atrás dela, para desespero da rainha que vai ao seu resgate, as duas são envolvidas pela magia do lago e vão parar na misteriosa terra de Eldritch. Separadas, mãe e filha tentam se reencontrar e voltar para casa, e no meio do caminho Rosella acaba conhecendo um pretendente que talvez a faça mudar de ideia sobre o casamento.

Diferente dos jogos anteriores, King’s Quest VII trazia gráficos de desenhos animados. Os personagens ganharam um design mais infantil, semelhante às personagens dos cartuns da Disney – aproveitando o sucesso que a companhia voltava a fazer com clássicos como o Rei Leão no início dos anos noventa. A história agora era dividida em capítulos, onde as duas protagonistas, Rosella e Valanice, intercalavam-se nas ações. E os personagens eram todos “fofinhos”, com maneirismos cômicos típicos de desenhos do Perna-Longa – embora algumas mortes violentas ainda estivessem na mistura do pacote.

King's Quest 7: babação de ovo para a Disney

Os fãs antigos sentiram-se traídos, afirmando que pareciam estar assistindo à um desenho animado do que jogando um Adventure Game. Porém King’s Quest VII tornou-se muito popular entre as crianças, sendo que a geração de fãs de 1994 da série lembra desde título como sendo o primeiro que jogaram da franquia. Mesmo assim as críticas não foram favoráveis como um todo.

Durante quatro longos anos os amantes da série ficaram no aguardo à espera do novo título que poderia redimir o legado de King’s Quest. Mas mal sabiam eles que o pior estava por vir. Em 1998, Roberta Williams lança o último título oficial da série: King’s Quest: Mask of Eternity. Mas a maioria esmagadora dos fãs preferiria que este jogo jamais tivesse sido lançado… pois ele foi a pá de cal.

O assim conhecido King’s Quest: VIII (embora muitos prefiram pensar nele como um Spin-off) é o primeiro da série totalmente em 3D e traz como protagonista Connor, um humilde fazendeiro de Daventry que não tem ligação alguma com a família real protagonista dos antigos títulos, exceto o privilégio de viver na terra que eles regem. A história começa após o Espelho Mágico (sempre ele!) prever uma desgraça que iria se abater não só sobre o reino, mas sobre toda a Terra. Somos transportados para o misterioso Reino do Sol, onde vemos um estranho encapuzado destruir em vários pedaços uma máscara dourada. Após este evento os pedaços são espalhados por toda parte do globo e um deles vai parar aos pés de Connor. Quando o rapaz começa a examinar o objeto, ele percebe que todos ao seu redor começam a virar… pedra! Incluindo o próprio Rei Graham, que faz uma aparição rápida na abertura do jogo (com uma voz irritante!).

Pela primeira vez o personagem principal tinha que combater hordas de monstros para sobreviver, algo totalmente inédito na série – e que não foi bem recebido. Os gráficos em 3D utilizados eram exageradamente poligonais, considerados ultrapassados já naquela época. O enredo também não era dos melhores, explorando exaustivamente os polos bem/mal que já estavam mais do que ultrapassados. O jogo foi considerado pelos fãs novos como uma má copia de Tomb Raider e pelos fãs mais antigos como uma calamidade! A té porque King’s Quest VIII não era um Adventure, e sim um jogo de Ação com alguns elementos de RPG.  

O oitavo título não vendeu bem. A série foi sepultada com o anuncio da aposentadoria de Roberta Willians. Dois anos depois a Sierra fechava as portas, sendo comprada pela Vivendi – e esta, posteriormente, pela Activision. King’s Quest dava seu adeus definitivo, encerrando a gloriosa era dos Adventure Games e entregando-se ao já abarrotado limbo onde antigas séries entraram e não mais voltaram a ver a luz.

Os Remakes dos Fãs 

…mas fã é um bicho ruidoso e saudosista.

Como não podia deixar de ser, boa parte dos fãs de King’s Quest engrossaram a primeira dentição de jovens que se tornariam os grandes programadores do início do século. Crianças que em plena década de 80 já mexiam no computador enquanto a maioria dos seus coleguinhas de escola nem sequer tinha visto um. Movidos pela nostalgia, estes fãs começaram a distribuir pela internet os jogos antigos na forma de Abandonawares (programas de computador antigos e ultrapassados, o qual nem mesmo os detentores dos seus direitos têm mais interesse em reavê-los). Foi assim que os primeiros King’s Quest, enfim, atingiram um público que nem sequer havia ouvido falar neles – ou então que os procurava, em vão, em lojas de artigos eletrônicos velhos. 

Por serem jogos tão antigos, a maioria deles não rodava nos sistemas modernos. Porém estes fãs desenvolveram ferramentas que lhes permitia aproveitar seus antigos jogos de infância. Um deles foi o DOS BOX, um programa que permite rodar todos os jogos antigos sem problemas em máquinas potentes, sobretudo aqueles que exigem a plataforma DOS, extinta em 1998.

Mas o resgate da série não ficou apenas por conta da distribuição de seus jogos originais. Diversos fãs, profissionais ou não da computação, uniram forças para fazer remakes dos jogos e permitir que uma nova geração conhecesse a série que os encantou por tanto tempo. 

Um dos mais importantes foi lançado em 2001 pelo grupo AGD Interactive, lançando uma versão VGA (semelhante aos jogos King’s Quest V e VI) do primeiro título da série, rebatizado de King’s Quest I: VGA, para download gratuito. O jogo recebeu uma atenção imensa da comunidade antiga de gamers, principalmente porque era muito semelhante às versões profissionais dos antigos jogos da Sierra, incluindo até mesmo vozes – sendo que o dublador do personagem principal, Graham, era o mesmo que emprestou sua voz ao rei nos jogos oficiais V e VII: Josh Mandel. Este remake era essencialmente idêntico, em termos de história, ao jogo original. Após a recepção calorosa, o grupo resolveu repetir a dose.

King's Quest 2 refeito. O rei ficou bonitão!

Dois anos mais tarde, a AGD Interactive lançou o remake do segundo jogo da série, agora intitulado King’s Quest II: Romancing the Stones. Desta vez o roteiro havia sido ampliado em relação ao original, oferecendo aos jogadores muito mais novidades e mais horas de divertimento – e o melhor, para baixar de graça! Mais uma vez o jogo foi esplendidamente bem aceito e inspirou outros programadores.

O grupo conhecido como Infamous Adventures resolveu cuidar de King’s Quest III Remake, também remasterizado para o sistema VGA e também disponível para download gratuito. Lançado em 2006, também foi acompanhado de elogios (com direito à vozes dos personagens, incluindo novamente o dublador original do rei Graham, que neste jogo faz apenas uma curta, mas significativa aparição). O sucesso, nem é preciso dizer, também foi grande, tanto que o grupo anunciou um novo projeto: King’s Quest: Kingdom of Sorrow, que mostra uma aventura inédita do rei, nos eventos que se passam entre o segundo e o terceiro jogo – baseado numa novelização da série, lançada na época do auge dos jogos.

O remake do quarto jogo da série, King’s Quest VI: The Perils of Rosella chegou a ser anunciado pelo grupo Magic Mirror Games, mas há dois anos que não se tem mais notícias do andamento do projeto – embora rumores dizem que o grupo AGD tomou a missão em mãos.

Além destes jogos, outros fãs se encarregaram de lançar fanfics, atualizações de soft (dos jogos originais) entre outras ações que mantêm a série viva. Mas o mais ambicioso projeto ainda estava guardado na gaveta. Em 2002 um grupo de programadores anunciou aquele que seria um dos mais grandiosos (e produtivamente complicados) fangames de todos os tempos: King’s Quest IX: Every Cloak Has A Silver Lining.

O Projeto Silver Lining 

Tudo começou com um burburinho graúdo na internet: King’s Quest teria uma continuação? Mas provavelmente não viria da Sierra, que já estava morta e sepultada. Mesmo assim desde outubro de 2000 que rumores vinham brotando. Até que finalmente foi anunciado: um grupo de programadores auto-intitulado Phoenix Online Studios iria lançar o nono (e provavelmente último) capítulo da série King’s Quest, num ambicioso projeto feito de fã para fã.

Assim surgiu o mítico King’s Quest IX: Every Cloak Has A Silver Lining. A comunidade de gamers antiga ficou mais do que entusiasmada. O jogo seria totalmente em 3D, utilizando a antiga mecânica que fez tanto sucesso para a série: “Apontar e Clicar”. Com um enredo novo e profundo, e acima de tudo com o aval da própria autora da série, Roberta Williams, a nona encarnação de uma das mais bem-sucedidas séries de Adventure Games de todos os tempos seria em breve lançada!

…mas não foi tão simples.

Em 2006, pouco antes da primeira versão do jogo ser disponibilizada, a Vivendi (detentora dos direitos dos jogos da Sierra na época) entrou com uma ação proibindo o lançamento do jogo. Eles alegavam (com certa razão) que o título era ilegal.

Foi um verdadeiro banho de água fria nos fãs que, durante longos 4 anos, acompanharam todo o processo de realização de King’s Quest IX. Revoltados, petições online foram criadas. Chuvas de e-mails caíram no colo dos executivos da Vivendi, sem falar em pedidos inflamados em fóruns diversos.

Diante disso a empresa voltou atrás e permitiu que o grupo continuasse com o projeto, com a única condição que excluíssem o “King’s Quest” do título e enviassem uma cópia para eles antes do lançamento na internet para o aval final. Com o acordo feito, os programadores decidiram aproveitar a pausa forçada para melhorar o que já tinham como quase pronto. O jogo voltou a ser repaginado e a Phoenix Online prometeu que o lançariam em breve, ainda melhor do que estavam planejando originalmente.

Foram mais alguns anos de espera. Mas bem aproveitados. Making Offs impressionantes foram lançados na internet, assim como trailers do que estava por vir. Revistas especializadas jogaram seus holofotes para o grupo em cada vez mais crescente ansiedade. Em 2008 um Demo do jogo foi lançado para satisfazer os fãs mais vorazes, que aprovaram incondicionalmente e mal podiam esperar pelo lançamento de Every Cloak Has A Silver Lining.

The Silver Lining: a volta do rei foi bastante complicada

No final de 2009, com boa parte do jogo enfim concluída, o grupo Phoenix enviou um DVD contendo o fangame para aprovação à Vivendi. Porém, algo que eles não previram era que a recente compra da Vivendi pela Actvision mudaria drasticamente as negociações. Foi anunciado, pela segunda vez, o veto ao jogo. Os executivos da Actvision não demonstraram interesse e exigiram a parada completa do projeto.

Mais uma vez foi um burburinho enorme. Mais irados do que nunca (afinal agora se somavam 8 anos de espera) os fãs mandaram mais uma vez uma chuva de e-mails e petições. Fizeram ligações para os celulares pessoais dos executivos e entraram em contato com a produtora. Após mais alguns meses angustiantes de negociação, enfim a Actvision deu seu aval para o jogo, que agora se chamava apenas The Silver Lining.

No dia 10 de Julho de 2010, enfim o primeiro dos cinco capítulos da série foi lançado. Intitulado “What is Decreed Must Be”, mostrou-se fantasticamente belo, embora curto, servindo apenas para o prólogo de um sonho que se realizava: King’s Quest estava vivo! A busca do Rei ainda não havia acabado.

Até agora 4 dos 5 episódios da série já foram lançados e é pouquíssimo provável que haja novos problemas. Eu já joguei todos eles e embora eu seja obrigada a dizer que nenhum deles chega aos pés de grandes pérolas como King’s Quest V e VI, ainda são bons jogos (sobretudo os capítulos 3 e 4) - e vale a pena serem jogado só pelo esforço destes dedicados fãs.

O Futuro da Realeza

Não se sabe qual será o futuro da franquia nas mãos da Actvision, embora entre uma conversa e outra, tudo leve a crer que a companhia tem interesse em reviver a série, até por causa da comoção que o jogo The Silver Lining causou. Ou talvez o destino de King’s Quest seja ficar esquecido, como diversas outras obras fabulosas da Sierra que agora estão sob a batuta da empresa que não pretendem reanima-las.

Mesmo assim, está claro que a série não irá morrer. Embora boa parte do seu público original seja composto por trintões e quarentões ocupados com outras coisas da vida além de ficar jogando no computador (ou talvez não…), os constantes remakes, lançamentos de abandonawares e este novo jogo irão trazer novos fãs para as buscas do rei, e esta nova geração certamente também irá se encantar com as histórias que parecem tão ingênuas nos dias de hoje, ou mesmo rir dos gráficos tão simples que rodavam em máquinas de menos de 100 MB de memória em plena era do PS3 de 60 Gigas.  

Mas o que importa não são os gráficos, mas sim as histórias. E estas, mais do que qualquer outro console de última geração, permanecem para sempre.

O Rei está vivo! Vida longa ao Rei!

Baixe Sem Culpa!

Se você ainda não conhece a série (ou se já conhece e há muito tempo não a joga) entre os sites abaixo e divirta-se!

AGD Interactive – Remakes dos jogos King’s Quest I, II e recentemente o III

http://www.agdinteractive.com/

Infamous Adventure – Remake do jogo King’s Quest III e projeto futuro de King’s Quest: Kingdom of Sorrow

http://www.infamous-adventures.com/home 

Site oficial do jogo The Silver Lining – com os quatro primeiros capítulos já disponíveis para baixar

http://www.tsl-game.com/

Escrito por Jussara Gonzo

17 de fevereiro de 2012 em 0:01

Publicado em ARTE, CULTURA, MATÉRIA GONZO, TECNOLOGIA

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Cronica Gonzo – Vai fazer o que da vida?

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Estamos no final de mais um ano e tenho certeza que muita gente neste exato minuto está se preparando para o vestibular. Talvez até já tenham passado e agora aguardam o primeiro dia de aula no ano que vem. Esta Crônica Gonzo é especialmente para vocês. E se não for o seu caso, por favor: repasse-a para alguém nestas condições.

Se eu pudesse dar um conselho em relação ao futuro (além daquele famosão de sempre usar filtro solar) eu diria: não vá para a faculdade antes dos 30 anos.

Infelizmente hoje parece completamente lógico que um pré-adolescente (sim, PRÉ adolescente) de 17 anos, assim que sai do colégio, já deve saber o que ele quer fazer para o resto da vida. A não ser em casos raríssimos, de jovens com até menos idade que já sabem muito bem qual a sua vocação, nesta idade a grande maioria não tem noção nem de quem eles mesmo são… e talvez demorem até os 50 anos para descobrirem. Pode apostar: testes vocacionais não ajudam em porra nenhuma porque eles só vão apresentar as suas áreas de interesse em TEORIA. Sem falar que a sensibilidade de muitas pessoas muda muito com o passar da vida – e isso é algo bom!

E não é apenas uma questão de vivência (de fato para você saber o que quer fazer da sua vida você precisa viver ANTES e não o contrário!) a culpa da nossa total confusão sobre o que queremos fazer em termos profissionais assim que terminamos o colégio é culpa do próprio sistema de ensino. Não, não! Não estou me referindo àquele mote de “escolas brasileiras são um lixo” e coisa e tal. Acreditem: em termos de “qualidade de ensino” estamos melhorando pouco a pouco, mesmo nas escolas públicas. Mas isso não adianta nada. No fundo não tem muita diferença entre a escola da favela e a escola hyper cara frequentada por filhos de donos de multinacionais. O problema está no MODO como somos ensinados.

Michel Foulcault, filósofo fodão, CANSOU de falar para todo mundo quais são os problemas do sistema de ensino, que é mais um “adestrador” de mentes do que um “ensinador”. Rubem Alves, grande educador, sempre que pode nos fala sobre a merda que é o modo como somos castrados desde criancinhas, aprendendo coisas que não nos interessa apenas para sermos iguais a todo mundo. Não dizem que é preciso se destacar, porra?! Nas escolas se você é muito bom numa matéria… beleza! Você tira “A”, você tira “10”. Se você quer ir além, você não pode porque todos aqueles cuzões dos professores precisam te nivelar (quinta série, sexta série…) diante do restante da macacada. E naquelas matérias que você é ruim você PRECISA investir naquilo porque você precisa ser NIVELADO! E se não conseguir… ainda é chamado de burro!

Nunca me esqueço de um dia que o pessoal da minha escola foi visitar uma petroquímica e havia uma guia que tinha feito faculdade de comunicação ou coisa assim. Parece que o químico que ia nos dar uma palestra faltou por algum motivo e a moça, que tinha assistido a todas as palestras, teve que falar de improviso para nós e explicar as coisas. No meio da conversa ela deu uma gafe e disse alguma coisa sobre “petróleo ser um metal” ou coisa parecida… sei lá… e isso virou a desculpa da nossa professora de química dizer “Tão vendo? Vocês não gostam de química e dizem que nunca vão usar isso para nada, mas um dia vocês podem precisar deste conhecimento!”. CA-RA-LHO!!! Para começar a culpa não foi da moça que era só uma guia e não tinha OBRIGAÇÃO NENHUMA de saber nada sobre química! E pensando bem… foi culpa dela sim porque a bundona deveria ter se recusado a dar uma palestra para o qual ela não é gabaritada. Todos temos que saber nossos limites!

Temos que ter conhecimento genérico (e superficial) sobre tudo só porque “um dia podemos precisar”?! Temos sempre que nos nivelar por baixo, investindo no que somos RUINS ao invés de investir no que somos bons?! Infelizmente é isso que a escola normal nos ensina, seja aquelas escolas de baixo nível, seja as de alto nível.

E depois que todo este conhecimento genérico e superficial nos é enfiado pela goela, temos que, baseado nele, decidir a nossa profissão! Somos obrigados a entrar na faculdade cedo demais porque dizem que “não podemos perder tempo”. PORRA!!! Quantos de nós fizeram uma faculdade que nem queriam, só para cumprir tabela, e hoje se arrependem do tempo que gastaram numa carreira que não gostavam? Isso que é “ganhar tempo”? Por que tudo tem que ser tão rápido?! Sexo só tem que ter dez minutos então! Ou talvez seja melhor nem perder tempo com sexo, afinal a não ser que você seja um mixê ou uma puta não vai lucrar nada com isso! Se temos que fazer as coisas em pouco tempo então que tal viver só até os 27 anos, heim? Uma economia de vida e a solução para não termos mais problemas com a previdência.

Esquecemos duas das coisas mais primordiais em termos de educação que é: você só quer saber de alguma coisa quando VOCÊ quer descobri-la! E o ensino é gravado mais forte na sua mente quando você faz um ESFORÇO para conseguir esta informação! Na escola nos tiram estas duas coisas mais básicas para se aprender, caralho! O professor de Matemática, o professor de História, o professor de Religião, o professor de Física te obrigam a aprender sobre coisas que você não quer saber. E o pior é que você nem precisa fazer esforço para descobrir as coisas, está tudo mastigadinho e prontinho numa apostila TUDO o que você “precisa” saber!

Eu lembro que quando eu estudava História (alias talvez eu faça esta faculdade futuramente) eu perguntava para o meu professor: “Ok, em 1.500 D.C. descobriram o Brasil, mas não estava acontecendo mais nada de interessante nesta época em nenhum lugar do mundo?” Claro que estava! Nas apostilas escolares falta falar da China, falta falar da Índia… países que só aparecem na linha temporal DEPOIS que foram conquistados pelos ocidentais durante as Guerras do Ópio e com o advento de Gandhi. A porra da Guerra do Paraguai nos é mal e porcamente explicada… e olha que foi o MAIOR conflito armado que o Brasil já participou, mais ainda que a Segunda Guerra Mundial, porque foi no nosso território! Uma covardia sem tamanho, onde matamos quase TODA a população masculina de um país onde praticamente não havia mais analfabetos. Um país incrivelmente moderno para a época e nós, brasileiros, acabamos com eles manipulados por um bando de imperialistas que não tinham interesse em ver nenhum país Sul-Americano crescer em termos de ciência e tecnologia.

O sistema de ensino atual em grande parte do mundo é uma merda porque ele foi criado na época em que as escolas se tornaram obrigatórias, lá nos idos da Revolução Francesa. Foi quando a burguesia (perdão pelo termo desgastado pelo Cazuza) tomou o poder. E por que os burgueses tinham tanto interesse que a galera soubesse ler e escrever e soubesse um basicão sobre tudo? Para se tornarem mão-de-obra, claro! Algum dia você se perguntou POR QUE você estuda? POR QUE você tem que ter uma faculdade? Antes, na época da minha mãe, as crianças ganhavam Diploma de Primário, porque era o ensino básico único que você precisava, o resto era enfeite. Depois era Diploma de Ginásio. Depois ambos desapareceram e foi criada a nona série e o Diploma de Ensino Fundamental. Depois Diploma de Colégio… Diploma de Faculdade… Diploma de Mestrado… não lembro quem disse esta frase maravilhosa: “Estamos ficando coletivamente mais inteligentes e individualmente mais burros.” E isto é a SINTESE do que está acontecendo! Você NÃO PODE obrigar a todos os seres humanos a serem doutores porque, senão, QUAL a vantagem em ser um doutor no futuro?! E por um acaso já se perguntaram se alguém QUER ser um doutor?!

A única matéria que poderia vale a pena todos aprenderem e que, infelizmente o sistema de ensino FINGE que existe é Filosofia. Atualmente temos “Filosofia” na grade escolar dos colégios, mas pode acreditar: não temos! Pois o que aprendemos é a História da Filosofia e contada do jeito mais chato possível. Quer dizer, é o plano perfeito para que as próximas gerações não pensem, pois estão ensinando a detestar o ato de pensar! Filosofia não tem NADA a ver com saber a biografia de Sócrates ou Aristóteles… isso é nota de rodapé! Filosofia é absolutamente tudo o que NÃO temos, infelizmente, nas escolas! Filosofar é a síntese daqueles dois atos mesclados que já falei: o DESEJO de saber e o ESFORÇO para descobrir, e nas escolas não nos ensinam porra nenhuma disso!

Antiga Ágora, na Grécia. A primeira escola de filosofia do mundo.

Para piorar, o nosso sistema politicamente correto também atinge nossas emoções além do intelecto. Nossos pais, estes filhos-da-puta fodidos bem-intencionados, querem o “melhor” para nós, mas só podem julgar o que é melhor baseado no que poderia ser melhor para eles. SE eles tivessem tido a oportunidade de fazer uma faculdade com a nossa idade; SE eles tivessem tido acesso aos computadores como temos hoje; SE eles tivessem desde cedo aprendido inglês… não dá para saber se a vida deles seria tão melhor se naquela época eles tivessem tido estas oportunidades e muito menos se eles iam GOSTAR de ter estas oportunidades! Acredite: oportunidades demais às vezes são um problema, porque você fica paralisado sem saber qual pegar.

“Você precisa se atualizar!” está é uma frase que eu até concordo e que todo mundo diz, só que há um problema nela: se atualizar em QUÊ?! Preciso me atualizar sobre todas as ultimas descobertas da neurociência quando sou um contador? Olha, quem sabe até precise se por um acaso eu tiver um cliente desta área, mas ainda assim precisa haver este impulso… esta vontade de eu sair atrás da informação. Não vai ser legal se me enfiarem o conhecimento goela abaixo. A mente humana não é um HD, por mais que os materialistas queiram nos convencer disso. E o Google facilitou e muito a nossa vida, mas até quando esta facilidade não pode ser também prejudicial? É como o famoso conto da borboleta tentando sair do casulo: um homem a viu e, para facilitar a vida dela, cortou o casulo com uma faca e, por isso, a pobre borboleta não fortaleceu as asas o suficiente (pois esta é a função primordial do casulo, forçar as asas a se moverem) e por isso jamais conseguiria voar.

Somos todos borboletinhas super-protegidas pelos nossos pais que, por mais que queiram que a gente arranje um emprego, estão dispostos a cuidar de nós e nos sustentar até nossos 40 anos. É como se os 40 virassem os novos 18, com a desvantagem de estarmos todos velhos, feios e com marcas de expressão. Hoje em dia se fala muito para combater o Bullyng, mas eu, que sofri MUITO bullyng no ginásio, defendo que em tons moderados ele até ajuda a te fazer mais forte, pois vai te preparando para pancadas maiores que você pode vir a receber na vida. Pois não adianta nada você ser um P.H.D. de Harvard se nunca enfrentou oposição de nenhuma espécie da vida (foi fatalmente mimado) e subitamente, quando precisa defender suas ideias diante de uma platéia hostil, eles começam a te depreciar e você perde a coragem porque nunca teve que lidar com situações parecidas. NÃO ESTOU de maneira alguma defendendo bullyng!!! Mas nos proteger demais nos torna dependentes e fracos.

Eu não me arrependo (muito) de ter feito jornalismo. Serviu para alguma coisa (como montar este blog) e tenho certeza que servirá para mais coisas no futuro. Mas se quer a minha opinião, jornalismo não devia ser uma faculdade: devia ser uma pós-graduação ou algo que valha. Pois, perdoem-me os defensores do diploma de jornalismo, mas na faculdade não aprendemos MERDA nenhuma do que é “jornalizar”!

Aprendemos a escrever matérias em pirâmide invertida, aprendemos o que é “barriga”, o que é “nariz”, o que é “bigode”… mas como colocar conteúdo numa matéria isso é algo que escola nenhuma vai te ensinar; talvez, quem sabe, a Escola da Vida (outro termo desgastado, mas apropriado para a ocasião). Tudo o que aprendemos nesta faculdade é a puxar saco de editor-chefe e pegar pautas escritas pelos leitores. Depois escrevemos 20 notas por dia e uma matéria grande por semana, numa redação onde o revisor chama-se “corretor ortográfico”. Tudo muito frio, muito mecânico, muito superficial… infelizmente dá para entender por que o diploma de jornalismo hoje em dia vale tão pouco!

Por isso, amiguinhos, antes de escolherem a sua faculdade… vão viver um pouco! Façam muitas besteiras na vida, muitas! É uma tremenda bobagem esse lance de “sempre faça as escolhas certas…”. Escolhas certas o CARALHO!!! Ninguém pode dizer se uma escolha é certa ou não até você realizá-la! E pode apostar que toda escolha, por pior que seja, terá sempre um lado positivo. Paul Arden, grande publicitário britânico, escreveu um livro inteiro explicando as vantagens das escolhas erradas: elas são boas! Ás vezes são até melhores que as “escolhas certas”!

A preocupação central da sociedade não é com você… mas sobre as coisas que você pode fazer em prol desta sociedade e, principalmente, as que você pode fazer contra – que elas vão tentar a todo custo evitar que você faça! No fundo quando alguém te pergunta quando criança “o que você vai ser quando crescer” ela está pouco se fudendo com VOCÊ, quer apenas saber qual será a sua futura função nas engrenagens como uma peça azeitada. E se você puder virar um empecilho no maquinário, aí sim vão se preocupar com VOCÊ!

Não tenha medo de começar as coisas “tarde”. Eu entendo este sentimento de angústia. Tenho 26 anos e fico às vezes remoendo o fato de que muita gente de 26 já tem seu empregão e seu carro. Mas, porra… cada um tem seu tempo! E pessoas que se deram bem aos 26 não necessariamente vão se dar bem para o resto da vida, sabe? Sem falar que, com o crescimento da média de vida humana, passar 70 anos da nossa longa existência fazendo uma coisa só (porque hoje em dia aposentadoria é sinônimo de MORTE) pode ser chato pra caralho, sabe? Meu pai começou a estudar medicina aos 50 anos e hoje, com 92, ainda trabalha com isso! Gilbert Garcin, fotógrafo famoso, começou a tirar fotos com 65. Conheço dúzias de mulheres que, só depois dos filhos crescidos, começaram a trabalhar e a investir nas suas carreiras.

Infelizmente a novela “Viver a Vida” caricaturou, cheio de piegas, às raias da demência o lance do “nunca diga nunca”, mas é tipo isso mesmo! Pare de se preocupar com a faculdade. Tem coisas muito mais legais para se fazer da vida e locais muito melhores para se aprender. se quiser fazer uma faculdade, faça quando tiver certeza… e tenha a certeza de que no fundo o diploma é apenas um pedaço de papel pendurado na parede.

Life is what happens to you while you are busy make another plans” John Lennon.

Escrito por Jussara Gonzo

29 de setembro de 2011 em 16:53

Materia Gonzo: 10 Dicas para Ratos de Sebo

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Olá, meu povo! Aqui estamos nós com mais uma Matéria Gonzo! E desta vez iremos falar do melhor amigo do amante das letras e dos LPs raros: os sebos!

Este é um post dedicados a todos os amantes da poeira, da teias de aranha, das folhas amareladas e da claustrofobia. Uma matéria dedicada aos ratos de sebo ou aqueles que pretendem se tornar um. Bem-Vindos ao mundo maravilhoso que é inconsolavelmente negado aos alérgicos e vítimas de asma e bronquite: os sebos!

Veja a seguir dez dicas para quem quiser se aventurar nestes adoráveis covis escuros!

1 – Leve luvas.

Sebos são locais cheios de pó e ácaros. Se um dia você vir um ácaro pelo microscópio provavelmente ficará com tanto nojinho que não terá mais coragem nem de dormir na sua própria cama. Imagine então o que guarda a poeira de décadas nos sebos mais antigos?! Leve um ou dois pares de luvas de látex (um para cada sebo que você pretende visitar) para proteger suas mãos o mínimo possível. O ideal seria inclusive levar máscara. Embora, com o tempo, você também vá adquirindo imunidade de frequentar estes lugares.

2 – Vá com tempo.

Não adianta ir no sebo naquele horariozinho que sobrou do almoço. Para garimpar estes locais é preciso ter tempo! De preferência tire um dia inteiro só para a sua empreitada arqueológica. Pressa é uma palavra que precisa desaparecer por completo do seu repertório quando for se aventurar neste mundo.

3 – Nunca vá em apenas um ou dois.

É comum novatos desistirem depois de entrarem em dois ou três sebos e não encontrarem o que estão procurando. Não desista! Visite no mínimo uns cinco. Já que tirou um dia todo para ir em sebos então vamos realmente aproveitar o dia todo! Existem alguns locais estratégicos (como a Sé, em São Paulo) que é toda tomadinha de sebos. Em Santo André também temos uma pequena rua de sebos no centro da cidade, mas são apenas 4 lojas. De qualquer forma, vá em locais onde existe uma maior concentração de alfarrábios.

4 – Não subestime sebos pequenos.

Sabe aquelas portinhas escondidas, espremidinhas entre outras duas grandes lojas? Pois é, as vezes em sebos pequenos você pode encontrar raridades! Coisas que nem os próprios donos sabiam que tinham. Fuce em tudo o que puder.

5 – Não confie nos funcionários.

A não ser que seja um sebo informatizado, com todos os títulos (difícil!) devidamente catalogados, nunca confie quando você perguntar por algum titulo, o vendedor fingir que deu uma procurada e depois dizer que não tem. Ele pode estar ali! As vezes no lugar errado, as vezes caído atrás da estante que nunca mais foi mexida de lugar há mais de dez anos… nunca confie no vendedor. Principalmente se você for procurar por quadrinhos, que geralmente são as seções mais maltratadas nos sebos.

6 – Compare edições.

É comum você encontrar em sebos livros, revistas ou quadrinhos repetidos. Isso é bom porque te dá a oportunidade de verificar qual está em melhor estado. Mesmo que esteja embalado em plástico você ainda pode exigir para o vendedor desencapá-los para ver qual das opções está melhor. Alias é bom fazer isso mesmo com os títulos únicos, verificando se as páginas estão em bom estado. Ah… e embora não seja muito aconselhável, sinta o cheiro dos livros. Já cheguei a comprar edições que, ao chegar em casa e começar a ler, as páginas folheadas levantaram uma catinga de mijo…

7 – Compare preços.

O preço dos sebos costuma variar, mas sempre gira em torno de 60% do preço original de capa – exceto no caso daquelas edições bem antigas do tempo dos cruzeiros e cruzados. Por isso é bom dar uma bizoiada em vários sebos para ver se você não encontra uma mesma edição mais barata em um que no outro. E as vezes até em melhor estado de conservação. Alias não é incomum encontrar no MESMO sebo um mesmo título com preços diferentes!

8 – Pechinche.

Se você for levar três ou mais itens, ou até mesmo levar livros que estejam repetidos no sebo, esta é a abertura para você pechinchar. Peça desconto, converse, leve o dinheiro amassado no bolso… faça aquela jogada “Cinquenta reais? Mais a minha nota de cinquenta está toda velha, amassada e remendada! Não prefere ficar com duas de vinte novinhas?” e coisas do gênero. Se o fulano se mostrar irredutível, diga que vai embora. Entregue o livro recusado na mão do vendedor para ele ter o trabalho de coloca-lo no lugar. Faça manha! E não caia naquele papo do “livro praticamente novo”. Se está no sebo então NUNCA vai estar completamente novo, mesmo que esteja ainda embalado no plástico – o que pode ser sinal de mercadoria contrabandeada! Peça desconto sempre!

9 – Leve uma mochila.

O meio de transporte mais adequado para se levar livros. Principalmente naqueles sebos bem vagabundos que nem te dão sacolinhas. Preferencialmente leve um saco plástico bem grande na mochila para o caso de você pegar uma chuva e ter condições de, pelo menos, proteger suas raridades.

10 – Ao chegar em casa, tome um banho!

Sério. Pode parecer uma dica boba, mas ela é muito importante! Depois de chafurdar nestas grutas de poeira e detritos centenários vá imediatamente tomar um banho! Lave os cabelos! Esfregue muito bem as mãos! E dependendo do quão pouco arejado eram os sebos que você visitou, deixe seus itens adquiridos tomando um arzinho por algumas horas. E logo depois: pronto! Pode deliciar com suas preciosidades!

Ah… e uma dica extra (a número 11) só como saideira: não seja tão irredutível a ponto de só procurar aquilo que você já estava previamente procurando. É possível encontrar coisas novas nestes alfarrábios. Coisas curiosas! Sempre reserve um dinheirinho extra para comprar aquele livro que você nunca viu na vida ou aquele quadrinho que você nunca ouviu falar, mas gostou muito do desenho da capa. Já conheci coisas fantásticas deste jeito!

Um sebo é um grande universo de descobertas! Aproveite-o todo! E cuidado com a “poeira cósmica” no nariz… e se sentir coceira nos olhos NUNCA coce com a mão sujas, okey?

Escrito por Jussara Gonzo

23 de setembro de 2011 em 21:47

Publicado em ARTE, COTIDIANO, CULTURA, MATÉRIA GONZO

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Indice de Matérias Gonzo

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Quantos anos já tem este blog? Três? Sei lá, deve ser por aí…

Em três anos de exitencia (para mais ou para menos) tivemos muitas tirinhas nesta budega, mas nem só de tirinhas se vive o QUADRINHOS GONZO e uma das primeiras coisas “atípicas” que comecei a postar aqui foram minhas Matérias Gonzo.

Confesso: foram poucas! Tentarei escrever mais delas daqui para frente. Mas enquanto isso relembrem o que eu já postei anteriormente – e para os leitores mais novo é uma boa oportunidade de conhecer alguns textos mais antigos. Cliquem nos títulos abaixo e apreciem:

4° Cinefantasy – Festival de Curta Fantástico

Numa Segunda-Feira

Hola, Bolívia!

Bienal do Livro de São Paulo – 2010

O Caos da Criação

Semos (sic) Inútil/ Transmetropolitan

Ensaio sobre o Nada

Pastilhas Rock II

Galeria Choque Cultural/ Livro Pirata

Escrito por Jussara Gonzo

19 de setembro de 2011 em 0:07

Publicado em HISTORIA, MATÉRIA GONZO

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Fotojornalismo Gonzo: Galeria Choque Cultural/ Livro Pirata

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Fala, pessoas! Hoje houve o lançamento do livro “A História da Arte Pirata”, da Dobra Editorial, na galeria Choque Cultural, em Sampa.

Ao contrário do que indica o confuso título do livro ele NÃO fala sobre a “arte pirata através dos tempos”. A grafia mais correta provavelmente seria “A História da Arte (pirata)” porque nada mais é do que um livro que pirateia o conteúdo do clássico livro homônimo escrito po E. H. Gombrich – que apesar de muito conceituado, é uma obra pra lá de entediante… 

Calma! Antes que chamem a polícia, vale ressaltar que o livro sofreu uma BRUTAL releitura de mais de 120 artistas diferentes (eu inclusa!). Cada um pegou uma página do livro e fez a sua releitura. Tudo valeu: desenho, tipografia, música, vídeo, gif. , fotografia, texto, etc! O resultado é um caos maravilhosamente coeso de arte das mais variadas formas. Virou praticamente um outro livro!

O lançamento foi esta tarde na galeria Choque Cultural, que eu não conhecia e achei demais!  O livro teve uma tiragem limitadíssima e NÃO terá outra. Ou seja, se você quer ver esta maravilha só lhe resta uma opção: piratear! E você pode fazer isso no site oficial do projeto http://www.livropirata.com/ e ter acesso a todo o seu conteúdo. Porém a versão Original do livro Pirata a essa altura está provavelmente esgotada (curioso… como pode haver “originais” de uma obra pirata, certo?), mas felizmente tenho a minha Cópia (bom, se é cópia então não é original… mas não é pirata porque é uma cópia autorizada… mas espere aí! Eles autorizaram as cópias piratas… hã…) aqui comigo guardadinha. E uma outra cópia está neste momento na Biblioteca Pirata Byam Shaw, em Londres! UAU! Uma obra minha na Inglaterra… *____*

Bem, para não chover no molhado e publicar aqui imagens do livro acho que é melhor vocês baixarem ele no site de uma vez. Prefiro postar neste espaço fotos da galeria Choque Cultural, que neste bimestre está exibindo a arte do grafiteiro Daniel Melim até o dia 26 de agosto. TODAS as paredes da galeria cobertas pela obra do artista… vão lá ver, rápido! Porque o mais triste é que no próximo bimestre a arte dele não mais existirá porque será coberta pelo próximo expositor. Bom… coisa de grafiteiro!

Fica aqui as fotos do lugar. Bom divertimento!

Galeria Choque Cultural - Rua João Moura - 997 - São Paulo - Terça a sábado

Escrito por Jussara Gonzo

30 de julho de 2011 em 22:36

Matéria Gonzo: Pastilhas Rock II

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Amy Winehouse morreu.

Recebi a notícia enquanto jogava Elder Scrolls IV: Oblivion, mergulhada na rotina de matar trolls, goblins e ogres (jogo excelente, alias!). Quem me deu a notícia foi minha mãe, sempre ligada no rádio da cozinha.

Fiquei chocada. Chocada e triste. Ela era uma das poucas coisas que prestava em termos de música nesta última década. Desliguei o jogo, corri para internet e vi que a notícia já começava a se espalhar. Assim como o irritante moralismo da galera falando sobre “dorgas” e sobre a insistência da cantora em não querer ir para a “rehab” e dizendo que ela “morreu por que quis”. Bando de filhos da puta pedantes! Se eles tivessem a MÍNIMA idéia do quanto é complicado uma pessoa largar um vício… se só rehab bastasse não teríamos tantos drogados recaídos – que são a maioria, alias – e se o problema da morte dela fosse só as drogas, não teríamos Keith Richards firme feito uma rocha com mais de sessenta, subindo em coqueiros e tudo.

Mas isso não muda nada. Ela se foi… aos 27 anos! Entrou para o mesmo seleto e triste clube de Morrison, Joplin, Cobain, Hendrix e Jones. Pena, talvez o organismo dela não fosse tão resistente quanto o de David Bowie, Iggy Pop ou Steve Tyler (só para citar alguns), ou talvez seus fantasmas fossem grandes demais. Pois o que realmente mata uma pessoa são seus fantasmas, a droga é apenas um dos MUITOS meios.

Seja como for, 23 de Julho de 2011 ficou marcado como a data da morte de nossa querida Amy. E mais: também era a data da minha primeira exposição de arte. No Pastilhas Rock II.

I Told You I Was Troble

 Eu estava animadíssima!

Faz semanas que eu estava pensando nisso. Pensando nesta exposição e selecionando trabalhos. Os dignos de exposição eu realmente achava muito poucos e pensei que talvez eu poderia fazer alguns extras, mais legais, para exibir. Vários desenhos meus expostos, que emoção! E eu ainda teria que fazer uma moldurinha em papel-cartão para eles para ficarem bem bonitinhos. O homem do evento Pastilhas Rock II, Vinicius, disse que eles seriam pendurados numa parede bem grande. Tenho que caprichar!

Porém os dias foram passando e a procastinação me pegou (além da missão principal do jogo Elder Scrolls que também exigiu muito de mim nos últimos dias). Não fiz praticamente nenhum desenho extra. Apenas um, feito na caneta bic às pressas na véspera do evento. Achei que sete trabalhos poderiam ser desagradavelmente insuficientes, mas paciência…

Pensei em como poderia ser a apresentação. Pensei em fazer umas molduras mais malucas, talvez em preto e vermelho (não, não sou flamenguista!). Talvez realizar alguns desenhos ao vivo e colar na parede na hora ao som do rock que seria tocado durante a festa. Poderia também colar, em tipografia diferenciada, os dizeres de Gombrowicz, “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados”. Sim, isso descreveria exatamente o misto de emoção e temor que eu tinha diante desta oportunidade. Uau, minha primeira exposição!

Infelizmente todos os planos mirabolantes foram morrendo à medida que eu fazia TUDO, menos organizar minhas coisas. E me vi há apenas 4 horas do início do evento com os meus desenhos soltos e sem moldura nenhuma. E todas as papelarias fechadas naquela tarde de sábado. Tô meio down, principalmente com a recém-chegada notícia da morte da querida Amy. Fico imaginando “é bem provável que façam uma homenagem à ela, toquem músicas dela… eu também preciso fazer uma homenagem!” Mas que jeito?! Sem tempo hábil nenhum! Decido que vou levar meu caderno de desenho e minhas canetas – qualquer coisa eu desenho ela lá durante o evento. Mas… ei! Não se esqueça! As molduras, as molduras!

Corri até uma loja de 1,99 e comprei duas folhas de PVC pretas e tentei fazer umas moldurinhas em volta dos meus trabalhos. Tentei do verbo fracassei, ficaram horríveis! Então decidi apenas encapar os desenhos em plástico. Yeah, bem rústico, bem “punk”!

2 horas para o evento. Ia começar que hora mesmo? As nove da noite? As dez? Nem sei, nem vi o flyer direito. Ah, preciso consultar o mapinha para ver direitinho o endereço do espaço Cidadão do Mundo para não me perder. Sim, a cidade de São Caetano do Sul é praticamente um condomínio, mas para eu errar caminhos é dois palitos. Felizmente o lugar ficava bem próximo da estação. Mesmo assim anotei o mapa mal e porcamente no verso de um recibo de uma conta recém paga e enfiei no bolso.

Mochila arrumada. Desenhos encapados. Dinheiro para o ônibus e o trem no bolso… ah, eu já tenho uma passagem de trem perdida na carteira, irei economizar 2,90 hoje. Lá vamos nós!

Saio de casa às 8 da noite e julgo que seja muito cedo ainda. Decido ir a pé. Na orelha, meu celular tocando o melhor de Winehouse: Back to Black, Love is a Losing Game, Rehab, Valerie, Wake up Alone e You know I’m not Good. Puxa… que merda perder ela!

Ah, também lembrei. Faz dois dias que não tomo meu medicamento do psi: Fluoxetina. É, preciso manter os MEUS fantasmas sob controle senão…! Mas é melhor assim, sem tomar o remédio, pois eu pretendo beber nesta festa e não é bom misturar tarjas vermelhas com álcool. Não quero fazer uma homenagem DESTE tipo à Amy, de qualquer forma.

E lá vamos nós para o Pastilhas Rock II!

 Tempted to work

Pego o trem na estação “Prefeito Assassinado – Santo André”. Vejo uma galera jovem (ou se fazendo de jovem) bem arrumada, provavelmente prontos para a balada e para pegar o trem para São Paulo. Um garoto de cabelos compridos exibe, orgulhoso, a garrafa de pinga escondida na jaqueta e conta para os amigos “que fumou um beck!”. Amadores…

Bem, todo mundo tem esta fase, não é? Se não é “Olha, galera! Eu sou cool! Eu fumo maconha e bebo destilados!” é sempre outra coisa para se exibir e ganhar a atenção como alguém de destaque do grupo. “Olha, pessoas! Eu sou do grupo Voluntários de Cristo! Eu espalho preconceitos e julgo as pessoas! Não sou demais?!”. Drogas, sempre drogas…

Quanto a mim, talvez eu tenha tido sorte de ter um organismo resistente como o do Paul McCartney (lindo!) que apesar de ter se jogado na maconha e LSD tá vivo e forte até hoje – e segundo uma entrevista insuspeita de poucos anos atrás, CONTINUA amigo da marijuana. Por isso as poucas drogas que provei nunca me viciaram. Sem falar que eu tenho uma arma natural contra o vicio: sou pão-dura. Às vezes, antes de participar da rodinha do beck com os meus amigos eu pensava “Cara, se eu me viciar nisso vai ser uma merda porque eu vou ter que gastar dinheiro toda a semana comprando esta coisa!”. Sim, talvez este pensamento foi o verdadeiro motivo que não me permitiu viciar em maconha, mesmo eu fumando constantemente durante um ano. Não sinto a menor falta e, pelo menos para mim, bebida legalizada me entorta a cabeça MUITO mais que aquele punhado de catnip de humanos.

Mas voltando ao ponto: em poucos minutos cheguei na “Estação Condomínio São Caetano do Sul”. Hora de pensar na festa e na minha exposição!

Saio da estação e pergunto para um grupo de transeuntes onde fica a rua que procuro. Eles dizem que é longe, que talvez eu precise de um ônibus. Mal sinal… Indicam-me uma travessa desta rua que vai cruzar com ela “láááá embaixo” segundo eles. Lá vou eu! As ruas são escuras e desertas e destacam-se as luzes da matriz das Casas Bahia no entorno. Quando estou chegando na tal rua indicada… oh, espere um pouco! Eu JÁ achei a rua que eu queria! Mas não era longe?!

Melhor para mim. Sigo a rua em apenas uma quadra e encontro o lugar. Espaço Cidadão do Mundo, uma pequena casa. Estranho… eu tinha lido no flyer que ia ter Pick Ups com som, não ia?! Pensei que seria, tipo, um quintal aberto ou algo assim. Talvez um evento na rua. Estranho.

E mais estranho ainda é eu ver tudo fechado e nenhuma campainha. Meto a mão na porta de correr de metal e consigo abri-la. E dou no lugar: um espaço mínimo. Aconchegante, mas mínimo. Não esperava. E então começo a procurar pelo homem do evento.

“Vinícius? Ainda não chegou!”

Tudo bem, eu espero! Enquanto isso arranjo uma mesa e cadeira e observo o movimento. Vejo umas sete pessoas organizando as coisas. Montando o palco e arrumando o bazar. Bazar? Ah é, ia ter bazar também! Vejo duas moças organizando algumas camisetas estampadas, no qual o namorado de uma delas chama de “peitas”. As estampas são aquelas super descoladas que estamos acostumados a ver nesta década: Poderoso Chefão, Mágico de Oz, Noiva de Frankenstein, Mussum… peraí, Mussum? Vocês AINDA tão no Mussum, minha gente?

Chega outra moça com o namorado, ajeitando algumas roupas de frio. Blusas de lã e casacos. Ah sim, e trufas! Uma senhora traz trufas para vender! Arte para o tato e paladar, suponho. Mais ou menos chega o cara com quem eu falei pela net, o Vinicius. Enfim alguém que eu conheço!

“E aí! Como tá? Que bom que cê veio, etc!”

Fazemos as apresentações. Ele me reconhece porque eu provavelmente seria o único ser humano no mundo que estaria desenhando no meio de uma balada… ou melhor, pré-balada, porque ainda não começou. Largo meu caderno de desenho e começamos a conversar sobre a exposição.

“Eu estava pensando em pendurar os desenhos na parede do bar, mas acho que o pessoal não ia ver. Melhor pendurar aqui.”

“Onde?”

“Aqui!”

Num lugar tão pequeno não há muito onde se pendurar as coisas. Então meus desenhos ficam bem na área do bazar. Descolo uma fita dupla-face e começo a coloca-los na parede, em cima de uns negócios de madeira. As pessoas olham, elogiam e tal. “Você desenha muito bem!” comentários simpáticos e simples. Ajeito os sete desenhos. Realmente para o tamanho da parede não eram poucos não. E assim eles são pendurados, ou melhor, colados! Abaixo deles as peças das moças do bazar. Um interessante sincretismo cultural. Êba! Minha primeira exposição!

Minha Exposição

Mas eis que me vem o pensamento copo-meio-vazio: “Por que você tá tão animada? É a só a porra dos seus desenhos colados numa parede! Mais nada! Você nem tá sendo paga!” Ok, ok! Mas calma, é um começo, né? O primeiro show de grandes bandas do rock também foi uma porcaria e miado pra chuchu.

E por falar em miado… bate onze da noite e o número de pessoas mal dobrou. Temos, no máximo, vinte homo sapiens, sendo que são convidados não-pagantes. Calma! A festa ainda vai começar de verdade! Ou assim eu espero.

...e abaixo o bazar.

Stronger than Me

Meia-noite. Logo será a apresentação da primeira banda.

“Quantas bandas são?”

“Serão duas.”

“Só duas?!”

Confiro o flyer de novo. De fato eram apenas duas bandas marcadas. Achei pouco para algo que seria um “evento de rock”, mas tudo bem. Isso significa que voltarei cedo para casa. Ótimo, porque começa a me bater uma depressãozinha: vinte pessoas numa festa, eu não conheço NINGUÉM e todo mundo se conhece. Chato isso…

Enquanto não rola as bandas o DJ coloca umas músicas. Ska e outros ritmos que não conheço muito bem. Nada suficientemente dançante para se distrair. Alias ninguém está dançando e não serei eu a primeira a fazer isso. Até porque eu só danço em locais que tem aquela luz que fica piscando, sabe? Porque aí, por causa das interrupções de luminosidade, ninguém repara o quanto você dança mal.

A fome começa a apertar. Vou até o bar do evento (que NÃO estava sendo organizado pelo pessoal do Pastilhas, mas sim por uma senhorinha que parece ser a responsável pelo Espaço Cidadão do Mundo). Vejo que eles têm pizzas. Pizzas recém-compradas em algum lugar. Fome! Compro um pedaço e nem reclamo do preço: 4 reais!

Como um pedaço da de calabresa num suspiro. Está semi-quente. Nem peço refri nem nada. Alias nem cerveja nem destilados. Quando estou com fome não fico muito no clima de beber. Peço outro pedaço e fica sabendo que não dá para esquentar um pouquinho mais porque, por algum motivo, o microondas não funciona. Esquivo-me da pizza de mussarela à temperatura ambiente e peço outro pedaço da de calabresa. Pelo menos tem carne e alimenta mais. Mais 4 reais. Com 8 reais já paguei praticamente metade da pizza sozinha! Adeus, economia das passagens…

E começa o Rock e’ Roll! Assim mesmo: “Vamos começar, galera! Vocês querem Rock e’ Roll?”

Honestamente? A PRIMEIRA banda que eu vir que NÃO começar com esta iniciação básica já ganhará o meu respeito de cara. Não foi o caso da nossa querida Giallos.

Banda Giallos

Eles são um trio, uma guitarra e uma bateria, mais o vocalista tocando gaita de vez em quando e sacudindo umas maracas. Parece pouco, mas mesmo com o minimalismo de instrumentos a banda parece musicalmente arrojada e fazem um som legal.

Ah, a propósito, “Giallo” é um gênero literário e cinematográfico dos anos 60 e 70 que seria uma espécie de “noir Italiano”. Muito violento, muito erótico e cujas capas dos livros eram geralmente amarelas (giallo na língua romana). Este, obviamente, é a origem do nome da banda.

O vocalista faz o famoso tipo “chapado”, imortalizado por caras como Iggy Pop. A diferença, é claro, é que o Iggy REALMENTE estava chapado durante os shows, o cara não. Mas ele chama bastante a atenção, como todo vocalista deve fazer.  A música não é exatamente casada com a letra, que parece mais uma declamação com som de fundo. Uma combinação interessante, mas que na minha vibe “latinha-meio-vazia” não cola. As letras têm alguns palavrões, tem a palavra Rock e’ Roll (caralho…) e são meio estilo Cabeça-Dinossauro dos Titãs. Nada contra, mas tipo… estão atrasados algumas décadas, suponho. Oh! Quem sou eu para falar em “atrasados algumas décadas”? Eu sou fã dos Beatles, caramba! Otária!

Seja como for as dez pessoas da platéia, que são obviamente amigos da banda, aplaudem e curtem o show. Não teve ninguém pulando e saltitando, mas todos parecem satisfeitos após os curtos 30 minutos que a banda tocou. Ok, é um tempo razoável para você curtir e conhecer um som que você nem conhece. Aplaudo o trio e dou umas beiçadas na Heineken de alguém.

“Em breve a próxima banda: Espasmos do Braço Mecânico!”

Arregalo os olhos pela primeira vez naquela noite. O nome da banda é bem interessante. De fato é um dos mais interessantes desde o nome de outra banda andreense que conheci tem uns anos, chamada “Sentimento Carpete”. Alias, por onde será que andam? Aquela era uma banda de Punk ABC muito boa!

Falando em Punk, penso como antigamente o som das bandas era ruim, mas as letras eram boas e originais. Hoje parece ser o contrário. As bandas alternativas tocam muito bem, mas as letras são meio manjadas. Imagino que para você criar uma letra REALMENTE bacana você precise de uma carga maior de ódio e indignação, coisa que é complicado achar outro porque o mundo está sempre te anestesiando, sempre querendo que você mantenha o controle.

Mas eu tenho indignação aos montes! Penso nestes malditos moralistas que postaram na net afora que Amy “praticamente suicidou-se” e falando coisas como “é a favor de liberar as drogas, cadê seu deus?” ou ainda “tá vendo, eu disse!”. Gente de mente estreita! Classe-média de vidas médias, valores médios, ambições médias e inteligência submergente! Esse bando de “gente comum” merece o fim que tem! Merece ser assaltada, merece ter o carro batido, merece ser enganada por político, merece ter as Casas Bahia ligando todo dia cobrando crediário atrasado, merece ter um trabalho entediante por trinta anos e depois se desesperar para pagar as sessões de botox. Para eles, eu fiz esta letra de música:

Aplaudam, Filhos da Puta!*

*Imaginem o som meio “Ramones encontra Sex Pistols”.

Não fala comigo!

Se mata e me poupe de você!

A morte dos outros é o seu deleite

Rir de quem caiu em cima de você!

Aplauda, filho da puta!

Aplauda, filho da puta!

 

Tesão por obesidade mórbida

Boiando na vida, medo de nadar e afundar

Precisam ter pena da sua dor de corno

Do crediário que te abandonou

Aplauda, filho da puta!

Aplauda, filho da puta!

 

Você está seguro

Alimentado, estúpido e feliz

Sem dinheiro para a gasolina

Mas feliz com o som do carro

Aplauda, filho da puta!

Aplauda, filho da puta!

 

Ria do fantasma dos outros

E esqueça o seu até ele te pegar

Aí eu vou aplaudir.

Cuzão!

 

Tá, não rimou. Não ficou legal, mas é isto que eu sentia quando ouvia essa gente falar da pobre Amy. Sim, também não podemos colocar todos os deprimidos e tristes nas algemas da auto-piedade e ficar com peninha deles o tempo todo que isso não vai ajudá-los, mas… porra! Se fosse fácil a arte nem existiria, porque a arte é basicamente isso: pegar a dor, a dúvida e o medo e transformar no intangível que você deseja para si. Os maiores artistas do mundo sempre foram os mais deprimidos.

Caramba! To só falando merda… deixa eu voltar para a pauta da matéria.

Enquanto esperava a segunda (e última) banda entrar caminho pelo pequeno espaço. Não tenho muito o que fazer. Tento me aproximar das rodinhas e tabular uma conversa, mas o lugar-comum “você desenha muito bem” é a única coisa que consigo arrancar da galera. Acho que não estou irradiando muita simpatia esta noite.

Enfim sobe ao palco “Espasmos do Braço Mecânico”.

Banda Espasmos do Braço Mecanico

Outro trio: duas guitarras (ou uma guitarra e um baixo, não sei a diferença) e um batera que chama mais a atenção em sua performance que os frontmen. Mal sinal.

Não sei se as letras deles são boas porque mal consigo ouvi-las. Nas primeiras duas músicas o grupo parece meio acanhado, agradecem ao espaço cedido e tals e cantam. Parece com MUITA coisa que eu já ouvi por aí em termos de Heavy Metal. A apresentação é bem insossa, mas aí começam alguns problemas técnicos no microfone e no alto-falante. Curiosamente são justamente estes problemas que fazem a banda crescer a medida que o show passa. O baterista joga as baquetas para o alto, finge não querer tocar, estas coisas. Mais problemas de som na batera. Curiosamente ficou legal! A banda termina muito melhor do que começou. Opa, já acabou? Ah é, são só trinta minutos.

O show termina e, tecnicamente, o Pastilhas Rock II também. São dez para as duas da manhã e o local já fica com clima de fim de balada. Sento num canto, aguardando o Vinicius me dar uma carona prometida para casa. O pessoal vai arrumando as coisas em ritmo de lesma. Vou recolhendo meus desenhos da parede – minha última esperança, que alguém de uma das duas bandas achasse eles legais e pedisse para eu desenhar uma capa de Cd ou coisa assim, morre logo depois que todos vão embora. Minha primeira exposição acabou tão silenciosamente quanto começou…

Meu desenho refletindo meu estado de espírito...

Fica só o pessoal da técnica, conversando, bebendo e repartindo o que sobrou da pizza que, agora, a tiazinha distribui os restos da mussarela fria de graça. Uma das moças do bazar termina de recolher suas coisas e me presenteia com uma trufa de amarula que ela trouxe para vender (alias, ninguém vendeu nada naquele dia). Que bom! Meu pagamento pela exposição foi uma trufa, pelo menos não foi de graça!

As três da manhã eu já estou encostando a cabeça na mochila. Quase na hora de ir embora é que finalmente o DJ toca umas músicas que eu conheço: “The man Who sold the World” do Bowie, “I Fell Fine” dos Beatles (na sequencia… estranho!) e quando já estou do lado de fora, esperando o pessoal trazer o carro, ouço “Just like Heaven” do Cure. Lembra minhas primeiras baladas de revival oitentista, quando eu dançava pra caramba! Sinto uma vontade de ir para o meio do palco e dançar, mas… porra! Não tem mais ninguém lá dentro. Já acabou! Hora de ir para casa!

Enfim entro no carro e sou levada para meu lar.

Entrei em casa e a primeira coisa que eu fiz foi procurar a minha caixa de fluoxetina. O show acabou e, no final, ninguém fez uma homenagem à querida Amy…

We only said goodbye with words

I died a hundred times

You go back to her

And I go back to

I go back to Black…

Bye...

Escrito por Jussara Gonzo

24 de julho de 2011 em 14:43

Publicado em ARTE, COTIDIANO, CULTURA, MANCHETE, MATÉRIA GONZO, REPORTAGEM

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Nota Gonzo: Rindo Starr no Brasil.

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Antes de mais nada: sim. As atualizações de tirinhas no blog estão bem esporádias, mas eu preferi assim por dois motivos. Primeiro, é melhor publicar poucas tirinhas, mas todas BOAS e inspiradas do que publicar com mais frequencia um monte de tirinhas fracas. Segundo, uma boa novidade está chegando aí para o segundo semestre e eu ainda não posso revelar, mas todos vão gostar!

Bem, bem, num dos meus posts do ano passado, comentei que o ano de 2010 para mim foi ruim. E um dos motivos principais foi o fato de eu ter perdido o show do Paul McCartney em São Paulo. Aquela oportunidade que, provavelmente, seria a primeira e última da minha vida de ver um beatle a menos de um quilometro de distância! Aquela que, provavelmente, seria sua despedida do Brasil.

Oh, mas a vida é uma caixinha de surpresas!

Menos de seis meses após os shows em Sampa e em Porto Alegre the man himself VOLTA para dois shows do Rio de Janeiro, cujo resentimento carioca por ele não ter tocado lá foi tão forte que moveu montanhas e até o empresário dele. E Macca veio se apresentar novamente num show… que EU ESTAVA PRESENTE!!! \o/

Pensei em transformar toda a minha epopéia para conseguir comprar o ingresso (que consegui depois de um TREMENDO golpe de sorte) e chegar até o Rio numa Matéria Gonzo, mas achei melhor deixar para lá. Falar dos Beatles toca em linhas realmente profundas dos meus sentimentos e da minha alma e certas coisas – por mais que essa geração “Big Brother” aceite blogs confessionais – é melhor permanecerem dentro do circulo da privacidade. Só duas coisas posso falar deste show: foi INCRÍVEL! E a segunda: policiais do Rio, eu REALMENTE acho que você precisam de umas boas aulas de educação antes de receber os turistas? É assim que vocês vão recebr a gringaiada em época de Copa do Mundo e Olimpíadas?!? 

Seja como for, estava eu procastinando na internet como de costume (não, eu NÃO tenho orgulho em falar isso) quando sou golpeada por esta notícia: Ringo Starr vem ao Brasil pela primeira vez!

Ringo sempre foi meu beatle favorito moralmente, embora em termos de música eu prefira, disparado, o Paul McCartney (mais que o Lennon e o Harrison). Não sei se conseguirei ver o show do Ringo, até porque ainda estou me recuperando financeiramente do golpe que foi ver o Paul do Rio (um golpe dolorodo no bolso, mas aliviador na alma! Como se “agora sim eu tenho direito de chamar a mim mesma de beatlemaníaca!”).

Deixo este post apenas para registro: leitores beatlemaniacos que pretendem ir ao show, boa sorte! Para quem não conseguiu ver o Paul nas duas vezes, esta pode ser uma boa chance!

E deixo com vocês alguns links. O primeiro da minha conta no Youtube onde postei os (poucos) videos que gravei do show do Paul ==> http://www.youtube.com/user/HQGonzo

O segundo é da minha conta no Tumblr onde eu pretendia publicar uma nova ilustra dos beatles todos os dias! ==>  http://beatleseveryday.tumblr.com/ Quando a barra esfriar voltarei a postar coisas novas aí!

Bom, e é isso! Batalhem pelos seus sonhos, irmãos beatlesmaníacos! Pois como diria Ringo Starr “IT DON’T COME EASY!”

Escrito por Jussara Gonzo

28 de junho de 2011 em 12:08

Publicado em ARTE, CULTURA, MANCHETE, MATÉRIA GONZO

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Press for Dummies 3

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Escrito por Jussara Gonzo

1 de junho de 2011 em 10:01

Materia Gonzo: Ensaio sobre o Nada

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Vou lhes contar um segredo: livro é uma coisa fácil, MUITO fácil de escrever. Muito fácil mesmo! Não apenas livros, mas músicas, desenhos, filmes… toda obra artística é muito fácil de se fazer! É só começar…

…mas este é o ponto! A verdadeira dificuldade é terminar. A verdadeira complicação é dar um acabamento – e um acabamento digno – a estas obras. É aí que realmente se separam os artistas dos ordinários.

É comum um artista de qualquer espécie ter seu período de não-produtividade. Muita gente pode pensar que é por falta de idéias. Não é bem isso. De fato é bem difícil ficar sem elas, pois idéias pipocam aos montes na nossa cara graças à Internet. Se o seu escritor favorito não publica nada faz tempo, pode ter certeza que não é por falta de idéias para tramas diversas e personagens interessantes. Essas coisas vêm aos montes para nós, artistas em geral: seja músico, pintor, escultor, escritor, entre outros. E cada idéia pode gerar uma obra diferente. Ou pelo menos o início dela.

Peguem a autora do Harry Potter, a senhora Rowling. No total foram 7 livros publicados para a série. Bem, mas se você acha que estes foram os únicos livros que ela escreveu neste meio tempo você está redondamente enganado. Para cada livro publicado por um escritor, jogue um zero à direita e você terá o número aproximado de livros que este mesmo autor já tenha começado, mas está longe de acabar – isso chutando baixo!

No caso de Rowling, se ela publicou 7 livros da série então provavelmente ela ainda deve ter outros 70 engavetados até hoje aguardando o possível lançamento. Dan Brown, com aquela sua mente fervilhante de idéias estranhas e teorias conspiratórias, publicou 5 livros; e possivelmente em seu cofre secreto, trancado com uma fechadura semelhante a um Criptex, deve haver o rascunho de pelo menos outros 50. Pegue um monstro da produtividade editorial, como Agatha Christie, e saiba que além dos 80(!) livros que ela publicou ao longo de sua vida, provavelmente havia outras 800 idéias para tramas que ela não teve tempo de desengavetar. O famoso “bloqueio de escritor” não tem nada a ver com a dificuldade em começar um livro, mas sim de desenvolve-lo e terminá-lo!

O mesmo acontece com outros artistas: embora ilustradores possam ser muito ágeis para terminarem desenhos sob encomenda (afinal seus salários dependem disso), seus projetos pessoais geralmente caminham a passos de formiga – isso se eles ainda têm um. A maioria acusa a falta de tempo (ah! O Tempo! Um recurso inesgotável da natureza, mas que não pode ser reciclado…) como o inimigo para concluir projetos, mas a verdade é que o grande inimigo é a dificuldade em dar prosseguimento e, por fim, terminar os vários projetos acumulados.

Nós, artistas, somos criaturas muito dispersas por natureza, e às vezes fazer aquilo que nos é mais caro, ironicamente, é o MAIS difícil. Focar-nos em coisas o qual não somos “obrigados” a fazer é a coisa mais complicada do mundo, porque sempre pensamos que podemos deixar para depois – e deixamos mesmo! Rowling reclamou dos seus editores pela pressão que eles faziam para que ela terminasse os últimos livros da sua série logo, mas se não fossem por eles e ela só escrevesse “por prazer” aposto que só teríamos 5 livros publicados de Harry Potter até hoje.

Agora, porque eu comecei esta matéria com todo este imbróglio? Simples: porque o mesmo acontece comigo ao escrever as Matérias Gonzo.

Bem-Vindos ao vestíbulo da minha mente.

Writer’s Block

A maioria de nós se esquece, mas jornalistas TAMBÉM são escritores. Não são exatamente os mais originais, justiça seja feita, mas vivemos de escrever de qualquer forma – pelo menos os profissionais dos meios impressos.

Escrever uma matéria jornalística costuma ser muito difícil, mesmo que seja uma simples notinha. Começamos muito bem fazendo aquelas famosas perguntas “como”, “quando”, “onde”, “quem , “por quê”, etc. No entanto, na hora da conclusão, perdemos um pouco mais de tempo. Se isso acontece com matérias pequenas, imaginas as grandes e especiais! É uma tortura! Começamos a escrever e a destilar tudo, mas chega num ponto em que simplesmente as idéias começam a se atravancar umas sobre as outras, como várias bolinhas de gude tentando atravessar a boca de um gargalo de garrafa. NÃO É a falta de idéias que interrompe o processo, mas a dificuldade de saber usá-las e organizá-las no texto. Amiúde temos que parar… respirar… e ignorar os berros do editor, avisando que o fechamento se aproxima.

Desenhistas também sofrem com isso. Quando vocês olham aquela ilustração super bonita na capa do livro, pode apostar que, para chegar nela, o desenhista teve que fazer milhares de esboços e rascunhos antes. Organizando o traço, a composição, as cores e tudo o mais. O “bloqueio” geralmente começa na hora de escolher, no meio de tantas idéias diferentes, qual a combinação certa – no caso, para quem faz ilustrações por encomenda, fica mais simples porque geralmente não é o próprio artista que escolherá estas coisas, mas o cliente (e quase sempre ele vai escolher a pior combinação possível!). No entanto, quando queremos fazer alguma arte por prazer, aí emperramos! E quase sempre publicamos ela meio incompleta em nossas galerias virtuais, como Flickr, DeviantArt e outras, só para nos “livrarmos dela”.

Sim! A verdadeira apoteose de qualquer artista é, enfim, “livrar-se” da sua obra! Pois não importa quanto tempo ficamos polindo, lambendo, ajeitando, arrumando, modificando… NUNCA fica do jeito que a gente quer! Então a solução é mandar logo a porcaria da sua pseudo Magnum-Opus para o editor/cliente/fãs com um belo “foda-se, vai assim mesmo” estampado.

Se você quer ser, ou já é, um escritor e tem um projeto de livro engavetado (oh, como sou inocente… UM projeto? Você deve ter vários, fala aí!) diga-me: há quanto tempo ele está aí sem ser concluído? E quantas versões diferentes dele você já fez? Ou, se conseguiu terminar e ainda não conseguiu publicar, quantas “arestas” você já cansou de limpar no texto que fez com que ele ficasse quase irreconhecível àquela primeira versão que você mandou para registro na Biblioteca Nacional?

Ah! Como nós, artistas, gostaríamos de ser tão produtivos o quanto queríamos! Mas acreditem, irmãos, nós SOMOS muito produtivos! É que não parece porque nós, simplesmente, largamos muita coisa no meio e não terminamos!

Por isso que às vezes alguém com o “chicotinho” na mão nos ajuda. Nós, artistas, queremos ser independentes… livres! Fazer o que quisermos na hora que quisermos.  Problema é que não existe nada mais contraproducente para um artista do que ele mesmo! A liberdade sem disciplina não vale nada – e realmente precisamos de pessoas para nos disciplinarem, por mais que a gente reclame do famigerado depois!

Veja um exemplo: Nos anos 60, os Beatles lançaram 13 álbuns de estúdio entre 1963 e 1970 – quase dois por ano! – fora os singles extras. Um dos motivos deles terem sido tão produtivos, além é claro do talento incomparável deles, foi a pressão que o empresário deles e os próprios fãs faziam, implorando material novo a cada mês. Uma loucura! Eles trabalhavam praticamente como japoneses fazendo hora-extra, quase sem folgas ou férias. Mas… veja aí o resultado: uma marca que NENHUM artista hoje em dia seria capaz de quebrar! Diga-me quantas bandas de hoje conseguem, sequer, lançar um álbum a cada um ou dois anos?

Falta de ideias? Não se iluda! Artista nenhum tem isso se souber realmente cavoucar bem no fundo do baú! O difícil, para nós, é pegar a tal idéia e transformar em produto – e TERMINAR a bosta do produto! Esse é que é o verdadeiro “insight”!

Mas, voltando à vaca fria aqui do blog: o meu problema atual é justamente esse, muitas ideias, mas pouco “insight” para transformá-las em produtos. E embora este caso atinja também as tirinhas (tenho muitas delas pela metade aqui no meu HD) falo especificamente das Matérias Gonzo. Uma parte pequena, mas importante neste sítio.

Matérias sobre “O Nada”

Segundo o último (e único) Fala-Povo que eu fiz no blog, Matérias Gonzo são justamente a menina-dos-olhos de muitos que acessam este blog. Tenho muitas, mas MUITAS idéias para estes textos, todas iniciadas, alias! Mas é difícil desenvolve-las até o final porque poucas conseguem se sustentar sozinhas em seus assuntos bobos. Pois falta-me aquilo que toda matéria jornalística precisa para ser interessante: uma boa pauta.

E como as minhas Matérias Gonzo falam mais das minhas desaventuras do que de assuntos de interesse público, devo dizer que a minha vida não está lá muito agitada para ficar escrevendo coisas interessantes o tempo todo. E eu não sou o Jerry Seinfeld para conseguir achar gracinhas em TODAS as situações cotidianas do dia. Por isso as últimas matérias que eu escrevi eram beeeeem tediosas.

Sim, tentei caçar assunto! Fui no MASP ver uma exposição, mas confesso que as atuais não são tão espetaculares a ponto de render um texto. Visitei lançamentos de livros, que também não foram tão legais assim. Tomei breja com os amigos, mas os assuntos foram os mesmos de sempre. O empreguinho bunda que arrumei no final do ano passado (e já larguei) também é o tipo de coisa que nem vale a pena ser comentada. Cheguei na frente dos cinemas e… francamente… não vi nada de bom que valesse gastar quase vinte paus. Caramba! Qual o problema? É o mundo que está tão sem-graça ou sou eu…? Nem responderei! Pois do contrário vamos atravessar o vestíbulo e colocar os pés sujos no carpete da sala-de-estar da minha mente, o que não pretendo deixar acontecer – pelo menos não hoje.

Nada de bacana acontece para eu realmente transformar em Matéria Gonzo. Para terem uma idéia, a coisa mais excitante que aconteceu esta semana para mim foi um holocausto de formigas na pia da minha cozinha. Eu avisei as folgadas: “Não é só porque eu não lavo louça há três dias que vocês têm o direito de colher as migalhas de sobras. Ainda mais de graça!” Alias, em casa de gente que mora sozinha a gente só percebe que tá na hora de lavar a louça quando abre o armário e não encontra mais nenhum prato ou copo limpo para usar…

Bom, mas a questão é que eu estava começando a ficar incomodada. Fazia tempo que eu não escrevia nenhuma Matéria Gonzo e eu realmente QUERIA escrever sobre qualquer merda! Qualquer coisa! Era como se um Brian Epstein dentro do meu subconsciente gritasse: “Vamos, vamos! Você tem que bolar uma obra-prima hoje! Daquelas que ainda serão lembradas mesmo depois de 50 anos após seu lançamento original! Vaaaaamos! Você tem mais uma hora!”

Corri até a minha pasta, onde eu tinha quase doze Matérias Gonzo iniciadas sobre assuntos irrisórios diversos. Li, reli, espremi o meu cérebro e então…

Saiu!

Saiu esta pequena matéria que vos estou apresentando neste instante: uma Matéria Gonzo sobre o NADA! A sensação foi como se livrar de uma constipação!

Claro, foi um recurso meio trapaceiro. O velho mote do “roteirista que não consegue bolar uma história e então ele decide escrever uma história sobre um roteirista que não consegue escrever uma história…” acho que já lemos algo assim na Turma da Monica no mínimo um par de vezes, não?

Bom, apesar disso, posso dizer que sinto como se tivesse “batido o ponto” hoje. Finito! Obrigação moral cumprida! E agora, antes que eu comece a grilar demais sobre maneiras mais “interessantes” de encerrar esta matéria e isso me obrigue a ficar polindo o texto além do necessário, devo prometer que a próxima Matéria Gonzo será mais divertida e instigante – ou assim espero!

Agora preciso ir. Os cadáveres das formigas ainda estão na redinha da pia para serem recolhidos.

P.S: E que ironia! Hoje é o Dia do Jornalista!

Escrito por Jussara Gonzo

7 de abril de 2011 em 0:19

Publicado em COTIDIANO, CRONICA, MANCHETE, MATÉRIA GONZO

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Matéria/Resenha Gonzo: Semos (sic) Inútil/ Transmetropolitan

com 6 comentários

Por que você é jornalista?

Você já teve a sensação de ser uma pessoa completamente inútil? Sério mesmo… inútil! Você não acrescenta nada à ninguém, nada à sociedade. Se as pessoas nunca tivessem te conhecido, não faria diferença…

Esta sensação recai principalmente aos ociosos e desempregados. Ficar sem fazer nada é maravilhoso… por um certo tempo! Chega uma hora que aquela culpinha capitalista de TER que trabalhar, TER que ser útil, TER que falar para as pessoas a sua profissão (qualquer que seja) bate à porta – ou então quem bate à porta primeiro são as dívidas. Geralmente, depois que você consegue um emprego, essa sensação de inutilidade desaparece. Afinal de contas, quando você trabalha, você está realizando uma tarefa e não está sendo tão inútil assim, certo?

Errado.

Como cheguei a comentar no OFF da minha primeira resenha, estou trampando com uma coisa que não tem nada a ver comigo. Mas é aquela coisa… TEM que trabalhar, enquanto não exercer a profissão que você sonha. Tudo bem, eu aceitei sem demora, pois pior do que as dívidas era a sensação de inutilidade que eu sentia por estar em casa. Mas qual a minha surpresa ao perceber que a maldita sensação CONTINUA! Firme e forte!

Eu tento me ludibriar e pensar: “Não, não, não, eu ESTOU fazendo algo! Algo importante!” Bem, eu trabalho numa área que é tipo/quase/meio que RH, e todos sabemos que o ÚNICO motivo do RH existir é porque a maioria das pessoas responsáveis pelas empresas não quer chegar nem perto dos famigerados que estão disputando seus empregos mequetrefes! O cara do RH é apenas o sádico que vai intermediar a contratação, fazendo perguntas estranhas, como “que animal você gostaria de ser?” e “você conseguiria trabalhar sobre pressão?” Puta merda… NINGUÉM consegue!

Seja como for, a sensação de inutilidade tem se mantido, pelo menos, estável em seu nível de “auto-depreciação moderada”. Só que ontem, segunda-feira, dia 17 de janeiro, ela atingiu seu pico porque… bem… eu não pude trabalhar! E por quê? O sistema caiu.

Sistema de Merda!

“O Sistema Caiu!”

Quantas vezes você já foi a bancos/agencias/escritórios/whatever resolver alguma pendenga séria, alguma coisa urgente, e não conseguiu porque “O sistema caiu”? Ah! Que BOM se fosse verdade no sentido sócio-economico da coisa!

O SISTEMA CAIU! Perdeu, preibói! Todas as leis que antes funcionavam (mal) não funcionam mais! Este sistema que corrói nossas vidas e nos anestesia com coisas supérfluas caiu! A VELHA ORDEM ACABOU!!! Todo mundo se livrando do tênis Converse, da blusinha Lacoste, do computador da Apple e cuspindo este café horrível da Starbucks! A vida que você conhecia antes não existe mais, e agora nós vamos…!

Ah, que bom se fosse verdade!

Anyway, “o sistema cair” é o tipo de coisa que te deixa puto da vida, certo? Principalmente se for ao telefone, tentando cancelar alguma bosta de serviço. Pois eu lhes digo: NÃO é culpa do atendente do balcão, nem da telefonista. O sistema cai MUITAS vezes não porque essa gente adora fazer charminho ou birra (tá, algumas vezes sim…), mas porque realmente ele “cai”. Os verdadeiros culpados são estes putos dos engenheiros de TI, que parecem fazer estes tais sistemas para caírem de PROPÓSITO! E para piorar NUNCA tem um destes “profissionais” disponíveis quando você precisa!

Eu trabalho num lugar onde usamos um destes tais “sistemas”, e exceção é dia em que ele não dá algum probleminha. Às vezes é coisa de minutos, às vezes leva uma hora para consertar. Mas ontem o sistema despertou problemático, e só voltou quando faltava meia hora para eu sair do trabalho. Alias, QUE trabalho? Sem o sistema eu não posso trabalhar.

Resumo da opereta: ontem eu praticamente não trabalhei.

Que bom, né? Que bom NADA! Se tem uma coisa que eu odeio mais do que trabalhar numa coisa que eu não gosto, é não fazer NADA! – a sensação de inutilidade atinge o pico! – Felizmente, no prédio onde se encontra a minha empresa, tem umas lojinhas no térreo. Uma delas é uma papelaria. Peguei umas folhas de sulfite, um lápis e fiquei desenhando por lá… desenhando… mas o escritório não é um ambiente muito preparado para atividades artísticas e ficar com colegas pescoçando seu desenho a cada cinco minutos é bastante desagradável também!

Por fim, quando deu meio-dia, pude sair para almoçar. Quarenta minutos era o tempo máximo do meu break. Mas eu pensei: “Foda-se!” e os quarenta minutos viraram duas horas. Sendo que uma hora e meia eu gastei na Livraria Cultura.

Ossos do Ofício

Achados e Desencavados

Dá para você desperdiçar uma longa vida na Livraria Cultura da Avenida Paulista! (não, não estou recebendo um centavo pelo merchan) Foi lá que eu afoguei as minhas mágoas, garimpando aquelas estantes de livros uma por uma. Sabe como é o Paraíso? Bem, eu tenho a crença particular que o Paraíso é diferente para cada tipo de pessoa. O meu seria uma Livraria Cultura eterna! Atualizada todos os dias com novas obras dos meus escritores favoritos – os falecidos, que também estariam lá para intermináveis sessões de autógrafos. Com uma lojinha de Frozen Yogurte de um lado e um Rei do Mate do outro. (não, eu REALMENTE não estou ganhando pelo merchan! Juro!).

Vasculhando aquelas centenas de milhares de livros, a primeira hora passou voando. Logo percebi que, apesar de tudo, eu TINHA que voltar para o trabalho um dia. Ou melhor, naquele mesmo dia. Então, para economizar tempo, fui direto para a parte de História em Quadrinhos da livraria, onde eu encontraria com mais rapidez coisas que me apetecessem. E foi lá, olhando para todos aqueles lindos tomos coloridos e importados que eu pensei: “Que merda ser pobre!”.

Enquanto eu segurava nas mãos uma edição importada de um mangá chamado REAL, tamborilando meus dedos sobre ela e pensando se eu devia começar a coleção, corri meus olhos pelas lombadas dos encadernados de quadrinhos americanos. Não sou grande fã de quadrinhos vindo dos Estados Unidos, até porque a grande maioria é de super-heróis. Claro, existem outras coisas maravilhosas, como Sandman, Bone, Estranhos no Paraíso e Planetary, entre outros, mas 70% dos meus títulos favoritos são europeus ou asiáticos. Porém, tive que parar minha vistoria quando vi, escondido entre um encadernado do Capitão América e outro de Mortos-Vivos (o duro desta parte da Livraria Cultura é a organização…) uma das preciosidades vindas dos nossos primos-ricos.

Era o primeiro volume de Transmetropolitan.

Pego de calça curta!

“Não tenho que agüentar essa merda! Eu sou um Jornalista!!!”

Há muitos, MUITOS anos atrás, quando o segundo milênio ainda respirava e as Torre Gêmeas ainda estavam de pé, lembro de ter ido até a casa da minha irmã, recém-formada em jornalismo, para uma visita. Entre aqueles livros engraçados que ela tinha, havia uma revista de quadrinhos. Achei aquilo bem estranho, pois para mim adultos não liam quadrinhos.

Eu ainda estava lendo aqueles gibis do Batman da Editora Abril, e de vez em quando alguma Turma da Monica. De mangá, só havia Ranma nas bancas, e algumas revistinhas informativas jocosas. Aquele gibi, no entanto, era diferente de tudo. E marcaria, para mim, a grande transição de minhas leituras de banda desenhada. Uma história que eu guardaria para sempre no meu coração como uma das minhas favoritas…

Não, não era Transmetropolitan.

Era Sandman – que, naquela época, estava começando a ser relançado pela extinta editora Metal Pesado. Foi naquele momento que eu fui lançada no universo Vertigo – o braço, digamos assim, “adulto” dos quadrinhos da mesma editora do Batman, a DC Comics. A partir dali, História em Quadrinho para mim teria outra conotação. Foi uma época muito boa este entre-milênios para a minha leitura – tanto de quadrinhos como de livros. E enquanto eu lia Sandman, comecei a me dedicar a procurar outros grandes títulos de quadrinhos adultos.

E, mais ou menos na mesma época, chegou o primeiro número de Transmetropolitan ao Brasil.

O título conta a história de Spider Jerusalem, um jornalista e escritor de Best-sellers que vive enclausurado em uma montanha numa vida perfeita, longe das pessoas, apenas com seus discos, livros e seus baseados. Mas tudo muda ainda na primeira página, quando seu antigo editor liga exigindo que ele entregue outros dois livros que ele prometeu escrever em contrato. Sem idéias para escrever e com advogados e policiais na sua cola, Spider não tem outra escolha a não ser voltar para a cidade e começar a escrever estes livros. Uma cidade pra lá de louca!

O lugar é uma caricatura de uma distopia cyperpunk. Maquinários futuristas (ou aparentemente futuristas, contendo um ranço do que se achava que era “moderno” nos anos 80), gangues de visual extravagante, drogas por toda a parte, sujeira, perdição, podridão e política. Uma fossa da civilização: local ideal para qualquer escritor apocalíptico se inspirar. Armado com pistolas, granadas e até um lança-foguete, nosso herói abre caminho em meio ao caos e encontra um velho amigo jornalista. Como precisa de emprego enquanto as idéias para os livros não vêm, Spider arranja um trabalho como colunista no jornal onde seu velho amigo é editor. Começa a loucura…

Esta revista rendeu, no Brasil, três números, que correspondem ao primeiro arco de uma epopéia lisérgica, regada com altas doses de ficção científica e devassidão. Logo de cara qualquer entendido de jornalismo saca que a inspiração para Spider Jerusalem (ou pelo menos uma delas) foi o nosso amigo Hunter S. Thompson, o pai do Jornalismo Gonzo – sujeitinho amalucado e perigoso, que realmente andava armado por aí antes de fazer suas matérias mais perigosas (se eu fosse ele, também puxaria o cano para certos entrevistados!).

"Me dê a porra da entrevista, seu merda!"

Back on the Street

Seja como for, assim que vi este volume na minha frente, peguei-o sem demora. Corri até o caixa (até porque já era mais de duas da tarde) e paguei salgadinhos R$ 34,33.

Este primeiro volume contém as seis primeiras edições de uma epopéia que, nos Estados Unidos, foi publicada até o número 60. No Brasil, depois da falência da Metal Pesado, aparentemente nenhuma editora mais se importou em trazer o restante das aventuras do jornalista louco. Uma pena! Deste modo, se alguém quiser acompanhar as aventuras de Spider Jerusalem, terá que garimpar muito! E provavelmente encontrará o material apenas em inglês.

Tudo bem, tudo bem! Vale a pena!

Lendo este único volume de Transmetropolitan eu aprendi 25 novos palavrões em inglês! Sem falar que serviu de catarse para que eu extravasasse um pouco a minha raiva daquele dia… alias de todos os dias! Além disso pude acompanhar as histórias com uma nova visão. Afinal de contas, quando peguei Transmetropolitan para ler, há dez anos atrás, fiquei muito impressionada por causa dos palavrões, da violência e tal. E qual não foi a minha surpresa ao ficar, novamente, impressionada com a revista, mas por outros motivos!

Spider Jerusalem é o jornalista que TODO jornalista gostaria de ser. Tem contatos quentes, conhece as pessoas, provoca as pessoas, não leva desaforo para casa e tem porte de arma. E mais: possui uma mente ferina e dedos ágeis que tecem as colunas mais loucas sobre os assuntos mais bizarros. Só neste volume ele escreveu sobre uma colonia de humanos que, modificando seu DNA, pretendiam se transformar em alienígenas… fez gato e sapato de um presidentezinho corrupto… assistiu mais de DOIS MIL canais de televisão para mergulhar fundo na podridão humana e, por fim, sacaneou geral com diversas religiões pilantras!

Enfim, enfrentou “inimigos comuns” à qualquer jornalista.

Se você é fã de quadrinhos, certamente caçar Transmetropolitan por onde puder. Se você não é fã, certamente vai virar quando ler esta preciosa peça. Diabos! Se você for jornalista TAMBÉM vai adorar! Mesmo que não ligue para quadrinhos.

Ah… quer saber como foi o resto do meu dia?

Cheguei em casa e não pude ler minha revistinha de pronto. Tive que ir ao dentista e depois ajudar a terminar de empactoar as coisas aqui em casa para a mudança que irei fazer esta semana. Tudo um caos. Tudo desarrumado. Tudo bagunçado… senti-me como o próprio Spider ao chegar na cidade futurista nojenta!

Para piorar, quase intoxiquei-me com o pó de artefatos ancestrais que estavam guardados no fundo de baús e armários (artefatos velhos e inúteis), incluindo uma boneca de um metro de tamanho (conhecida como “Amiguinha”) que era da minha irmã. Embrulhada em saco preto, parecendo um cadáver de Teresópolis, esquecida no fundo das tranqueiras. DEPOIS disso é que, enfim, pude terminar de ler o volume e escrever esta resenha só para o blog não ficar às moscas esta semana.

Tô cansada e suja de poeira. E não consigo nem encontrar a porra da minha escova de dentes. Como eu queria ATIRAR em alguém agora! Nem que fosse uma bolinha de papel…

Hunter Thompson: A semelhança NÃO é mera coincidencia

Escrito por Jussara Gonzo

18 de janeiro de 2011 em 0:40

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