Arquivo da categoria ‘RESENHA GONZO’
Resenha Gonzo: Ledd

Sou uma entusiasta dos quadrinhos. Embora a maioria das pessoas ainda veja os “gibis” como mero entretenimento infantil, devo dizer que… sim! HQs são mesmo entretenimento infantil, mas não só isso! é diversão também para jovens, adultos e velhos, além de fontes de informação, pesquisa e aprendizado. Uma forma pictórica e simples (porém jamais simplista) da literatura que é terrivelmente subestimada em grande parte do mundo.
Grandes HQs não deixam nada a desejar para formas de arte mais “nobres” (falarei de muitas delas em outra ocasião). Quadrinhos são a Nona Arte, merecendo ser respeitada tanto quanto a pintura, o cinema e o teatro. No Brasil ainda temos um caminho longo, muito longo a percorrer para que um dia as HQs mereçam destaque na vida dos brasileiros tanto quanto as novelas e a cerveja de sexta-feira. Um desafio enorme, mas não impossível (afinal se os Video Games conseguiram ganhar tamanho respeito e relevância na vida dos adultos nos últimos anos, por que não as HQs?).
Por isso senti que precisava falar mais sobre este tema aqui no blog. Para este mês, pensei seriamente em fazer uma Matéria Gonzo sobre o próximo “Fest Comix”, a maior feira de quadrinhos de São Paulo (e talvez do Brasil) que ocorre neste dia 15 de outubro, mas tive uma idéia melhor. Resolvi fazer uma resenha de uma HQ – e não é uma HQ qualquer, mas sim de uma webcomic nacional, que servirá também de gancho para eu expor algumas opiniões pessoais sobre o quase inexistente mercado de quadrinhos produzidos no nosso país.
Hoje vou resenhar Ledd, uma HQ de fantasia medieval. Criação de J.M. Trevisan e desenhos de Lobo Borges. Bora ler!
A História
O enredo é bastante simples: o protagonista é um jovem herói desmemoriado, cuja única coisa que consegue se lembrar é seu próprio nome (no caso “Ledd”). Está preso numa masmorra de segurança máxima por um crime que ele nem sabe qual é. Enquanto ele se faz todas estas perguntas, uma centelha de esperança surge: um estranho mago, também prisioneiro na masmorra, oferece a ele uma proposta de aliança para que ambos consigam sair da prisão juntos. E então…
Bem, a história é bacana e a arte, baseada no traço de mangá (sim, porque ao contrário do que a imensa maioria das pessoas pensa não é simplesmente “olho grande” que faz de uma história em quadrinhos um “mangá”) feito de maneira competente. Porém estes detalhes são o que menos importam. Não estou resenhando Ledd por causa da HQ em si, mas sim pelo que ela representa: um começo de algo novo e corajoso no mercado tupiniquim!
O que Realmente Importa…
Lembra-se quando eu disse que Ledd era uma webcomic? Pois é! Ela pode ser lida a qualquer momento por qualquer criatura que tenha internet AQUI NESTE LINK, sem precisar pagar assinatura nem nada!
Ok, isso não é uma graaaaande revolução, é? Não é difícil encontrar quadrinhos na internet, mas a maioria deles são fanzines ou são quadrinhos feitos por amadores, desde sagas longas até tirinhas (incluindo as minhas!). E digo “amadores” porque, para mim, o que realmente difere um profissional de um amador é: se ele está sendo pago pelo seu trabalho.
Não interessa se um cara faz uma HQ e ele desenha MUITO bem, escreve MUITO bem e é RESPONSÁVEL com prazos de entrega; a partir do momento que ele não está recebendo nada para fazer uma história em quadrinhos ele não é um profissional dos quadrinhos. Claro, existe muita gente que desenha mal, escreve mal e não cumpre prazos e ainda recebem dinheiro por isso… estes caras são os MAUS profissionais. Mas anda são profissionais? Sim, são, pois estão sendo pagos (não sei por que, mas AINDA estão!).
No mundo dos quadrinhos de internet existem poucos “profissionais” (mas MUITA gente de talento!). Creio que posso enumerar nos dedos de uma só mão a galera que (pelo menos eu conheço) começou publicando quadrinhos na internet e virou profissional (recebe dinheiro) depois disso: André Dahmer dos Malvados, Fabio Yabu dos Combo Rangers e Rafael Sica do Ordinário. Só! O resto é uma galera que já publicava quadrinhos pelo método “analógico” e migrou para a internet, mas aí já é outra história.
Bem, bem… HQs de graça pela internet existem às pencas, não só no Brasil como no mundo. Então qual a relevância de Ledd?
A relevância é que a HQ está sendo bancada por uma editora! No caso, a Jambô Editora. E cujo conteúdo será, mais tarde, impresso na boa e velha versão analógica que nós tanto amamos dos quadrinhos: papel e tinta. E por que isso é “revolucionário”? Porque, antes mesmo da versão impressa sair, já temos o conteúdo INTEGRAL da história na internet… e publicado com o aval da própria editora que banca o material!
A imensa maioria das editoras tem PAVOR de pirataria e, quando divulgam algum produto em seus sites, no máximo exibem apenas uma amostra: deixam disponível apenas o primeiro capítulo de um livro ou as primeiras páginas de uma HQ. NENHUMA editora publica seu material na íntegra… e quando estes materiais são encontrados inteirinhos dando sopa por aí, bem… bem… são deletados e os responsáveis caçados! Sites de divulgação de livros, quadrinhos e outras obras pirateadas sofrem verdadeiras blitzs e seus materiais são tirados de circulação.
Mas no caso de Ledd temos uma editora que já poupou o trabalho dos piratas: ela mesma JÁ deixou disponível o seu produto inteirinho para ler na nossa web!
Ledd é a primeira HQ nacional PROFISSIONAL disponível na íntegra na internet! Esta é a sua “revolução” e o seu grande ponto de relevância! Algo que, na minha nada humilde opinião, eu julgo como sendo a solução para os quadrinhos no Brasil alavancarem! Acham pretensão? Bem, irei explicar…

Publicar quadrinhos no Brasil é como lutar contra monstros!
Brasil, terra ingrata, mas fértil!
Existem dois grandes vilões que atravancam a cultura impressa neste país… não, não! Não estou me referindo ao analfabetismo e a falta do costume da leitura dos nossos conterrâneos. Estes são inimigos “menores” diante de dois MUITO maiores que as editoras precisam enfrentar na hora de vender seus materiais. E publicando na internet os autores de Ledd já eliminam os dois logo de cara:
O primeiro é a distribuição.
Por ser um país muito grande, o sistema de distribuição de livros, quadrinhos e revistas no Brasil é extremamente deficitário – principalmente nas bancas de jornais. Alguns títulos de editoras grandes chegam mais ou menos na época certa na região sudeste e sul, mas nas outras regiões atrasos e ausências são alarmantemente comuns. Sem falar que os custos de distribuição comem, no mínimo, 50% do valor de capa da revista!!! Ou seja, se você comprou um gibi por R$ 6,00 apenas R$ 3,00 vão realmente para o saldo da editora.
É um custo alto compreensível, haja visto que este país é enorme e nosso sistema de transporte de carga baseia-se nas rodovias que, verdade seja dita, não andam muito bem de asfalto ultimamente; principalmente acima da linha do trópico de Capricórnio. Ou seja: distribuição no Brasil é cara. Pior! É desleixada e atrasada!
O segundo grande problema é o próprio valor de uma revista brasileira que, em comparação a outros países, é muito cara! Não só distribuição é uma coisa muito custosa no país, mas impressão também! As gráficas brasileiras estão entre as mais caras do mundo, de modo que dificilmente uma revista aqui sairá barata.
É comum você ver uma publicação que, digamos, é distribuída tanto no Brasil quanto em Portugal e custa 12 reais aqui e 3 euros na Europa… quer dizer, em Portugal, levando em conta o valor do salário mínimo deles, 3 euros é uma mixaria! Mas aqui 12 reais pode pesar em alguns orçamentos.
Ledd não tem nenhum destes dois problemas, pois tirando o custo de manutenção do site, não precisa gastar uma fábula com impressão, nem perder metade do seu valor de capa com distribuição. A HQ já pode ser lida por todo mundo na internet! O pessoal da região Nordeste não precisa sofrer com atrasos de três meses, em relação à São Paulo, para ler seus quadrinhos prediletos: basta ter internet e pronto!
Agora todo mundo pode falar: “Ok, e a galera que não tem internet? Vai ler a história como?” Olha, meu amiguinho… se você dissesse isso há 10 anos atrás realmente este seria um ponto de preocupação, mas, convenhamos! Quem não tem acesso à internet hoje em dia (nem que seja na Lan House, no trabalho ou casa de parentes) deve ter preocupações maiores na vida do que ficar lendo histórias em quadrinhos! São pessoas que, pouco provavelmente, iriam ler ou mesmo comprar a HQ Ledd em sua versão impressa… ISSO se a revista conseguisse chegar numa cidade que não tem Lan House, pois como já expliquei a distribuição no Brasil é muito ruim!
E como é que a editora vai lucrar com isso?
Com a venda do material impresso (e, se forem espertos, com materiais adjacentes da franquia, como bonequinhos, cadernos e outras quinquilharias). E provavelmente muitos farão a seguinte pergunta: “Mas por que eu vou comprar essa HQ se posso ter acesso a ela de graça na internet?”
Você eu não sei. Mas se o preço do volume desta HQ estiver legal EU vou comprá-la, mesmo ela estando disponível de graça na internet!
Da mesma forma que um fã que, apesar de baixar as músicas do ídolo de graça, AINDA assim compra o CD original, a camiseta do fã clube e paga o ingresso para ver o show eu acredito que Ledd – e outros quadrinhos nacionais diversos – podem sim vender bastante se tiverem uma boa estrutura de divulgação por trás (além de uma boa qualidade, claro!) e, acima de tudo, se seus artistas forem incentivados a produzir o material sendo PAGOS para isso. Por exemplo, a periodicidade de Ledd é mensal e já está no quarto capítulo. Isso somam quatro meses: o artista PRECISA ser pago para manter um trabalho durante quatro meses de qualidade e entregue no prazo!
Já houve algumas tentativas de se montar Portais de Quadrinhos Nacionais na internet, mas a grande merda é que nenhum dos artistas era profissional (ou seja, era pago). Por isso com o passar do tempo estes mesmos autores tiveram que correr atrás de trabalhos de verdade e abandonar as hqs – ou então faze-las naquele tempo extra espremido que tinham entre seu trabalho de balconista do McDonald’s.
Uma coisa vital nos quadrinhos é PERIODICIDADE. O trabalho precisa ter uma produção e publicação contínua o mais próximo possível da data certa e isso é impossível se não há um retorno financeiro para o artista! Ou vocês acham que, caso eu estivesse recebendo para fazer as minhas tirinhas Gonzo, eu não estaria publicando uma por dia aqui nesta joça?!
Ledd ainda vai passar pela prova de fogo: a venda do material impresso que, segundo seus autores, terá o primeiro número (encadernando os 4 primeiros capítulos) disponibilizado nas livrarias no mês de novembro. Se vender bem… manolo! Esta é a prova de que publicar quadrinhos na internet PODE ser lucrativo! E que a publicação via web do material na íntegra não apenas causa uma boa impressão para o público em geral (pois a massa A-DO-RA uma permuta grátis) também serve como divulgação extra; pois ninguém precisa olhar para a capa da revista e imaginar se a história é boa ou não: as pessoas já sabem, pois já leram na internet. E se comprarem é porque gostaram muito e vão querer ter a versão impressa nas mãos para ler no banheiro (sem correr o risco de deixar o iPad cair na privada).
As editoras devem perder o medo da “pirataria” e se “auto-piratear” até como uma forma de divulgação do seu material. Mais do que isso! Ao invés de pagar caro pelos direitos de hqs gringas, por que não investir no artista nacional? Tem muita, MUITA gente de talento por aí que está disposta a largar o emprego chato de Assistente de Arte para por em prática um projeto que pode, quem sabe, se tornar a nova Turma da Monica Jovem (que atualmente vende não menos que 300 mil exemplares por edição!). Seria lucro para ambos os lados! E o fortalecimento de um mercado que, atualmente, anda muito mal das pernas – e por isso mesmo é que é o grande momento de alguém se destacar!
Como diria Neil Gaiman, quando questionado sobre o que achava dos seus livros estarem sendo baixados na internet: “Minha preocupação seria se eles NÃO estivessem sendo lidos”.

Será ele o primeiro grande herói do novo Mercado de Quadrinhos Nacional?
Resenha Gonzo: The Arrival

Tenho pena de quem acha que quadrinhos é só Turma da Monica, super-herói e mangá. Muita pena. Estas pessoas não fazem ideia o quanto o mundo da banda desenhada é rico e primoroso. Pequenas (e grandes) obras podem ser encontradas em todo o mundo dentro da Nona Arte. Coisa boa, coisa ORIGINAL! Algo que o mundo do entretenimento neste início de século XXI parece ter em deficiência.
Porém ainda existe esperança. De vez em nunca surge uma boa HQ que realmente te faz saltar da cadeira e soltar um palavrão. Mas num país (e de certa forma num mundo) onde os quadrinhos ainda são vistos, em sua maioria, como coisa de criança, obras espetaculares da banda desenhada dificilmente chegam ao grande público. Ou quando chegam ficam com aquele status de “cult” que muita gente foge, porque infelizmente “cult” pode também ser desculpa para se classificar qualquer porcaria como uma boa hq.
Felizmente não é o caso de The Arrival, de Shaun Tan.

Prepare-se para uma grande viagem.
Conheci este autor ano retrasado e percebi que ele é um destes raros desenhadores que não se limita à um só estilo ou midia. Este artista australiano (e provavelmente de descendencia chinesa ou coreana) possui uma vasta gama de obras autorais em formato livro e quadrinhos. Sem falar em outros trabalhos em áreas como o teatro, cinema e pintura tradicional. Porém de todas elas a que mais me impressionou foi The Arrival.
A HQ conta a história de uma família que vive num país sombrio e que precisa com urgencia encontrar outro lugar para viver. O pai decide imigrar sozinho para uma terra longínquoa na tentativa de conseguir dinheiro para também trazer a família junto com ele. Após uma triste despedida e uma longa viagem ele chega neste estranho país… um mundo completamente surreal e estranho – como, inclusive, deve parecer qualquer país desconhecido para um recém-chegado.

A fuga da terra sombria.
Ele passa pelas primeiras dificuldades a qual todo imigrante é posto à prova: tem que convencer às autoridades que é adequado para viver naquele lugar. Precisa aprender seus costumes, seus modismos e acima de tudo precisa encontrar trabalho o mais depressa possível. Nem sempre as coisas dão certo, mas no meio do caminho ele encontra algumas boas almas que o auxiliam nesta empreitada tão difícil; muitos deles imigrantes também e já bem integrados à comunidade.
A história é sensível e bela, com uma arte feita em lápis preto de cair o queixo! Tecnicamente Shaun Tan é um primor: composições maravilhosas, acabamento impecável, idéias excelentes e muita, muita imaginação. O estilo dele é, a primeira vista, bem tradicional e “comum”, mas isso até suas idéias malucas começarem a aflorar e as coisas começarem a acontecer. Nos cenários, ele arrasa! As imagens são completamente loucas, mas mesmo assim ancoradas em intrincadas redes de funcionamento. Nada está ali ao acaso. E toda esta estranheza inicial daquele mundo traduz, sem precisar de palavras, o receio e a confusão do nosso protagonista imigrante.
Alias este é outro grande trunfo deste album: ele NÃO tem palavras!

Imagens valem muito!
A história toda se ancora numa espetacular narrativa muda, apenas com imagens. Muito prático, pois poupa os editores de terem que traduzir o material. As sequencias são muito bem pensadas e desenhadas, de modo que mesmo sem palavras você entende exatamente tudo o que está acontecendo. As várias sequências do nosso protagonista esboçando expressões de angustia ao tentar se comunicar com alguém que provavelmente não fala bem o seu idioma… a descoberta dos estranhos objetos domésticos que se usa naquela terra… o pequeno e estranho animalzinho que ele encontra na rua e acaba se tornando seu bichinho de estimação… Não é sem motivo que a obra é monocromática, pois lembra os melhores filmes mudos do início do século passado!
Nunca se sabe o que vai acontecer na próxima página. A todo instante a obra nos pontua com momentos de surpresa e emoção, sejam elas alegres ou tristes. E não só acompanhamos a história do nosso acidentado imigrante, como também conhecemos as histórias de outras pessoas que vivem naquela terra. Lembranças tristes, mas que se enevoam quando retornam ao presente brilhante e esperançoso. Tudo feito com um primor narratico e gráfico impecável.
The Arrival é o tipo de obra que qualquer pessoa – eu disse QUALQUER pessoa – deveria ter em casa, goste ela de quadrinhos ou não (e se não gosta, é bom começar a aprender a gostar!). Uma história sensível e bela.
Encontrei meu album na versão importada na Livraria Cultura por 44 reais. E não… NÃO está caro! Deixem de ir no MacDonald duas vezes na vida ou então parem de comprar estas ridículas HQs de super-heróis que viem-e-morrem-revivem-e-morrem durante um mês e peguem este álbum maravilhoso. Os fãs da boa hq não vão se arrepender!

Belo e estranho mundo...
RESENHA GONZO: BÓRGIA

Fui à Wikipedia e digitei o nome de Alejandro Jodorowsky. Autor chileno prolífico que já escreveu vários textos em prosa e poesia não apenas para os livros, mas para o cinema, o teatro e, principalmente, para as histórias em quadrinhos.
No entanto fiquei bastante chateada ao perceber que na sua página Wiki em português, na lista de suas obras, as HQs nem são citadas. Provavelmente o autor boçal que escreveu o artigo acreditou que suas histórias em quadrinhos eram uma “arte menor” e como Jodorowsky já tem uma extensa carreira em outras áreas mais “sérias” nem valia a pena falar de suas ótimas BDs (Bande dessinée, como são chamadas as HQs na França, país onde a maioria de suas obras neste estilo foram publicadas) como Incal, Casta dos Metabarões e Bórgia – a obra a ser analisada nessa resenha.
Os Bórgias foram uma família que existiu de verdade no final da Idade Média e seu mais ilustre membro foi Rodrigo Bórgia, ninguém menos do que o Papa Alexandre VI. Naquela época ninguém era santo, muito menos os eclesiásticos (alias até hoje não são…), porém Rodrigo Bórgia ficou conhecido como o mais pervertido, violento e pecaminoso papa que jamais vestiu a coroa papal. Uma verdadeira vergonha para a igreja católica, tanto que nunca mais nenhum papa ousou dar prosseguimento ao seu título “Alexandre” desde então.
Além de Rodrigo outros dois membros da família ficaram muito conhecidos: César e Lucrécia Bórgia, filhos do papa (naquela época padres, cardeais e papas tinham filhos sem constrangimentos). O violento e enciumado César foi o modelo que o escritor Maquiavel usou para seu livro O Príncipe – a primeira obra que foi honesta o suficiente para dizer que reis deviam ser pessoas mais temidas do que amadas para melhor conduzir suas ovelhas assustadas. E Lucrécia ganhou a fama de ser filha, nora e amante do próprio pai, tendo tido relações incestuosas com Rodrigo e César. Existiram outros dois filhos de Alexandre VI (e talvez outros mais) Jofre e Giovanni, mas estes nem se comparam em termos de escândalos ao triunvirato Bórgia.
E são justamente estes três que são os grandes astros da BD Bórgia, escrita por Jodorowsky e magistralmente ilustrada pelo mestre da putaria: o italiano Milo Manara.

HABEMUS PAPAM
A obra está dividida em quatro volumes, publicados pela editora francesa Glénat e editados pela Conrad no Brasil. O primeiro: Sangue para o Papa, começa com a história de um pregador enlouquecido chamado Girolama Savonarola que prevê o fim do mundo. Religioso extremamente radical (mesmo para os padrões da época) ele começa a angariar vários fiéis igualmente enlouquecidos na sua visão extrema de religiosidade. Seu principal alvo é a própria igreja que está envolta em corrupção e pecado e anuncia que, em breve as coisas irão piorar quando um papa ainda mais pecaminoso surgir no Vaticano.
Nesta época, ainda vivia o papa Inocêncio VIII que já se encontra muito doente. Seu mais fiel amigo é o cardeal Rodrigo Bórgia que já demonstra uma grande ambição pela coroa papal. Quase literalmente puxa o saco do papa moribundo e consegue grandes favores, algo que não agrada aos outros cardeais, sobretudo Julio della Rovere, retratado na HQ como um viadinho e, na vida real, um dos mais fervorosos opositores de Rodrigo, juntamente com Savonarola.
Nesta época os quatro filhos do futuro papa ainda são crianças, mas já se encontram envoltos em perigos e tramóias. Vivendo num mundo duro precisam endurecer seus corações. Deles César já se destaca como o mais violento e ambicioso, enciumado pelo excesso de carinho que seu pai dá ao primogênito, Giovanni. Lucrécia também se mostra uma garotinha extremamente mimada e pervertida de modo que nem sua ida ao convento consegue refrear seus instintos primitivos.
Ao mesmo tempo, com a morte do velho papa, começa uma corrida desleal pelo posto de Vigário de Cristo, onde Rodrigo consegue, aos poucos, comprar todos os votos e intimidar o restante dos cardeais, sendo nominado o papa Alexandre VI. Mas este é só o começo da trama.
Os dois álbuns seguintes, O Poder e o Incesto e As Chamas da Pira, mostra as crianças todas adultas, sobretudo Lucrécia e César que consumam sua relação incestuosa para garantir que a família sempre se mantenha unida. Do lado de fora do Vaticano o novo papa ainda precisa domar e controlar a turba que não o obedece. E para isso ele não cessa de usar a superstição do povo e criar personagens demoníacos para controlar a opinião pública – tudo muito semelhante ao que os políticos e religiosos fazem até os dias de hoje. Também testemunhamos a consumação da relação entre Lucrécia e seu pai, os novos inimigos do papa e as crescentes maquinações de Julio della Rovere para assassinar Alexandre VI.
O último álbum, Tudo é vaidade, foi lançado no Brasil no último dia 14. Mostra o desfecho da família Bórgia, que atinge o ápice do seu poder à um preço muito alto. Agora os familiares jogam-se uns contra os outros e o resultado será fatal para todos os Bórgia. Não pude deixar de notar que este quarto álbum teve um final muito corrido, podendo a história discorrer por pelo menos mais um tomo. Provavelmente a editora e Jodorowsky decidiram apressar o fim da trama para fechar a obra em apenas quatro atos, além de provavelmente o senhor Milo Manara, mais simpático às putarias heteros, cansou-se de desenhar as viadagens que rondavam o Vaticano naquela época (só naquela época, é?).

TUDO É POESIA
Está claro desde o começo que acuidade histórica é o que menos importa para Jodorowsky e eu respeito isso. Certos eventos carecem de fontes confiáveis e patinam em datas desconcertadas. A atitude dos personagens também é bastante teatral e exagerada, sem falar que colidem com as informações históricas que temos e, sobretudo no último álbum, até com o bom-senso. Mas isso não é tão importante. Todo o argumento é amarrado de maneira magistral com a agulha do choque pelo choque, mas usado de maneira inteligente.
A todo instante a obra está no último volume. Não podemos virar três páginas sem nos depararmos com alguma coisa chocante, violenta, pervertida ou dramática. A arte de Manara contribui e muito para isso: suas aquarelas são magistrais e belas e ele adora desenhar todas as mulheres com cara de chupadoras. Os homens, sobretudo César Bórgia, também são desenhados com extrema beleza. As cenas de batalha e assassinatos são chocantes, assim como a perversidade dos métodos de tortura da época que são mostrados sem refresco para o leitor.
No saldo final, Bórgia é uma obra maravilhosa, embora não seja a melhor de Jodorowsky. Mesmo assim vale a pena ter em casa para guardar, ler e se deliciar todos os dias. Sem falar do testemunho importante à todos os religiosos fervorosos que, não importa qual seja a sua fé, os representantes dela na Terra são apenas humanos falhos; e alguns têm realmente gosto em falhar!

SAIDEIRA: SANGUE REAL
Irei aproveitar o fim desta resenha para fazer um rápido comentário sobre a última obra em quadrinhos do chileno: Sang Royal (Sangue Real em português), também publicada pela editora Glénat e atualmente com apenas um álbum lançado; Noces Sacriléges ( Bodas Sacrilégicas em português) – o segundo sairá no meio deste ano. Mas sem a mínima previsão de quando ganhará uma versão nacional, só disponível através de importadoras (olha para ela, Conrad!).
Mais uma vez Jodorowsky comanda o roteiro de maneira chocante e a arte fica à cargo do excelente artista chinês Liu Dongzi que mistura um impecável traço à lápis com uma suave e perfeita colorização digital.
Sangue Real conta a história de uma fictícia família da realeza medieval que vive todos os clichês possíveis de morte, traição e ruína que rondam os monarcas. O personagem principal é Alvar, um jovem rei orgulhoso que é mortalmente ferido em batalha. Seu primo Alfred, parecido com ele, lhe toma o lugar e o deixa para morrer. Delirando e quase falecido, o moribundo é recolhido por uma mulher horrorosa, mas de bom coração. Em seu delírio ele pensa que a mulher é sua bela esposa Violena e a engravida. Anos se passam e a criança, Sambra, virou uma mocinha gentil que, sem querer, faz com que o pai descubra sua antiga identidade e parta, furioso, atrás do reino que lhe foi roubado, abandonado sua família. Mas Sambra ainda voltará e crescerá e, no futuro, se tornará alvo de amor do rei.
Muitos outros clichês acompanham a trama, mas é impressionante que, embora você já tenha visto todos eles, a obra ainda desperta em você um interesse genuíno. Toda ela é muito bem contada. As frases dos personagens são teatrais e pouco naturais, como numa peça de Shakespeare. Todos eles são angustiados e amargurados dentro do seu pequeno mundo de tragédias terrenas e divinas. Uma autêntica obra barroca, tanto em texto como em ilustração.
História em Quadrinhos são obras de arte tão importante quanto a literatura, o cinema ou o teatro, mas infelizmente isso ainda não é devidamente reconhecido no Brasil. Jodorowsky, assim como os artistas Manara e Dongzi, são apenas três dos milhares de nomes que elevam essa arte ao devido respeito que ela merece. Cansadod e ler grandes livros sem figuras? Descubra este novo mundo e delicie-se com estas obras você também!

Resenha Gonzo: Shigurui
Desde a estréia dos notórios Cavaleiros do Zodíaco (que trouxe na sua esteira Megaman, Naruto, Pokemon, Yu Yu Hakusho, Fullmetal Alchemist, Inu Yasha, Samurai X, entre outros) que os desenhos animados japoneses, mais conhecidos como “animes”, acabaram ganhando a fama inexorável de “desenhos violentos”.
Isto, naturalmente, é uma generalização tão injusta quanto dizer que só existem favelas no Brasil. Existe MUITA favela por aqui? Sim, existe, mas nós também temos a Avenida Paulista, o bairro Moema, Brasília, Curitiba e outras belas amostras de regiões onde vive uma classe-média/alta brasileira.
Da mesma forma, temos muitos animes “família” para a petizada assistir. Os mais famosos são os longa-metragens do Estudio Ghibli, encabeçado pelo diretor Hayao Miyazaki, conhecido no ocidente como o Walt Disney Japonês – entre seus filmes constam A Viagem de Chiriro e O Castelo Animado. Das séries de TV, temos muitos animes que não têm a luta e a violência como tema principal, como Speed Racer, Bakuman, K-On e… e… ok, a lista não é muito longa.
Seja como for, na Resenha Gonzo de hoje irei falar sobre um anime que depõe totalmente À FAVOR do estigma de violência, sangue e morte que ronda os animes. Trata-se do espetacularmente sanguinolento Shigurui.

FRENESI DA MORTE
Numa tradução literal, “Shigurui” significa “Frenesi da Morte” (Death Frenzy em inglês, como é conhecido no ocidente). A palavra é oriunda de uma citação do general japonês Nabeshima Naoshige, comentada no livro Hagakure, a bíblia dos samurais, que diz: “O caminho do samurai está no desespero.”, onde a palavra desespero pode ser traduzida como “loucura” ou “frenesi”. Em outras palavras, um samurai, para ser plenamente eficiente, deve enlouquecer num frenesi de morte.
Ué? Mas por quê?
Vamos, antes de mais nada, explicar quem são (ou eram) eles: os Samurais eram os guerreiros de elite do Japão Feudal. Para defender o seu Daimyo (senhor feudal), eles, literalmente, colocavam sua vida no fio da lâmina. Não hesitavam de maneira alguma em ir para uma batalha mortal, servir de guarda-costas ou duelar para defender a honra do seu empregador. Seguiam códigos éticos bastante severos e qualquer mácula em sua reputação terminava em Seppuko (ou harakiri), o suicídio ritualístico. Em outras palavras, embora representassem a nata da sociedade japonesa na época, as vidas dos samurais valiam o tanto que o seu senhor determinava.
Por este motivo estes guerreiros deviam, pouco a pouco, desapegar-se da própria vida (que, de certo modo, não lhes pertencia). Eram apenas máquinas feitas para retalhar inimigos – mesmo que estes “inimigos” fossem, inclusive, amigos e parentes do próprio samurai. Diante de uma sina existencial tão terrível, enlouquecer realmente parecia um caminho válido para um samurai: pois quanto mais enlouquecido, mais facilmente ele poderia matar ou morrer pelo seu senhor.

A história de Shigurui gira em torno desta lealdade extrema dos samurais. Baseada no primeiro capítulo da obra do escritor Norio Nanjô, o “Torneiro no Castelo Suruga” (Suruga-jô Gozenjiai), a narrativa começa relatando a morte de Tokugawa Tadanaga, o irmão mais novo do Shogun – autoridade máxima do Japão Feudal – que foi obrigado a cometer Seppuku devido aos rumores de sua má conduta. Esta má conduta estaria associada a diversas atrocidades que o lorde fez, entre elas o Torneio do Castelo Suruga, onde ele obrigou diversos espadachins a lutarem batalhas mortais apenas para sua diversão.
Nada que fosse tão descabido na época, se não fosse um detalhe: ele exigiu que os combates fossem feitos com espadas reais ao invés de espadas de madeira (que eram usadas, obviamente, para preservar a vida dos lutadores), pois seu desejo era de ver o sangue escorrer pela arena. Algo tão absurdo quanto decretar que as lutas de Esgrima, Boxe ou Vale-Tudo dos dias se hoje fossem até a morte!
Praticamente condenados, os melhores espadachins do país se reuniram à mando do seu senhor. A maioria não sobreviverá, mesmo os vencedores, pois muitos não resistirão aos ferimentos causados pelas espadas reais – a Katana, a espada curvada japonesa, é considerava até hoje a lâmina mais letal do mundo.
Começa o torneiro e o primeiro embate reune dois espadachins bastante inusitados: Gennosuke Fujiki, um samurai sem um braço, e Seigen Irako, um espadachin cego e manco. À princípio, todos duvidam que samurais em tão lastimável estado irão conseguir realizar uma boa luta, mas há algo diferente neles. Algo… insano!
Quando a dupla de aleijados estava prestes a começar a lutar, o momento é congelado e começa um Flashback gigantesco, que conta a história destes dois inimigos mortais, que já haviam se enfrentado no passado e, agora, estão diantes do seu duelo final.

BLOODY FLASHBACK
A saga inteira de Shigurui toma rumo de lembranças dos personagens – incluindo alguns flashbacks dentro de outros. O tempo volta até sete anos atrás. Conhecemos a Escola de Esgrima Kogan, um nome poderoso em sua província, liderada por um samurai louco de seis dedos na mão (!). Seus discípulos são guerreiros orgulhosos, quase tão loucos quanto seu mestre. Obedecem aos mandos e desmandos do seu senhor sem piscar, não hesitando em cometer assassinatos ou desfigurar pessoas com suas espadas apenas para provar a força da sua escola.
Um dos discípulos mais jovens, porém mais fortes, é Gennosuke (na época com seus dois braços intactos) que se mostra um espadachim extremamente severo e sério. Sem jamais ter perdido um combate, ele acaba sendo desafiado pelo, até então desconhecido, Seigen (na época, ainda com sua visão e seus pés intactos também). O samurai invasor é belo e astuto e consegue fazer o impossível: derrotar um membro da escola Kogan. Embora tenha conseguido derrubar Gennosuke, ele não consegue vencer seu segundo oponente. Porém, devido ao seu belo desempenho, é acolhido na escola Kogan como um novo membro.
Em pouco tempo Seigen e Gennosuke se tornam “amigos”, ou algo próximo disso. São colegas persistentes, sempre tentando superar um ao outro. Ambos disputam a mão da bela Mie Iwamamoto, filha de Kogan Iwamamoto, o mestre louco. Tudo parece prosseguir bem, até que as ambições de Seigen Irako começam a ficar desmedidas, conflitando com os interesses da escola. E o preço que o espadachim terá de pagar por sua insolência é alto demais, fazendo com que ele entre numa espiral de loucura em busca de vingança.
Embora o grande pivô da história seja a rivalidade de Irako e Gennosuke, eles não são os únicos personagens abordados. Existem outras bizarrices no elenco, como dois samurais gêmeos e gays (!!) que lutam sempre juntos, uma garota samurai hermafrodita (!!!) que tem força suficiente para carregar um cavalo nas costas, um guerreiro desfigurado que tem a forma de um sapo (!!!!), entre outros. Estes são apenas uns poucos exemplos.
E para regar este imenso circo dos horrores, temos litros e litros de sangue espirrando, e quilos e quilos de tripas expostas. Alguém aí está com fome?

GORE, GORE, GORE
O artista que cuida do enredo e da arte de Shigurui, Takayuki Yamaguchi, é conhecido pela sua grande acurácia em desenhar anatomia humana. Principalmente a interna!
O mundo dos samurais não era mesmo um lugar muito amigável. Sangue e tripas eram parte do seu cotidiano. Tanto assim que os samurais, antes de um duelo, costumavam tomar uma bebida depurativa para limpar os intestinos, no caso destes serem cortados e exibidos ao público, para não dar mau cheiro (!!!!!). E é justamente esta escatologia macabra que é exibida em Shigurui, sem amenidades.
A loucura psicológica também está presente na história. Sempre à mando de alguém, os personagens se vêem obrigados a cometer atos imorais em nome do seu senhor. Parece completamente descabido hoje, para nós, que um patrão nos obrigue a matar, roubar e até mesmo assistir passivamente o estupro ou assassinato de uma pessoa que amamos apenas “porque o mestre mandou”. Mas na época dos samurais, eles precisavam engolir seus sentimentos e obedecer cegamente às ordens. Sem chiar.
O “Frenesi da Morte” (ou, simplesmente, o “Desespero” citado por Nabeshima Naoshige) era, provavelmente, uma consequência do duelo interno destes samurais com suas própria consciência e os desmandos dos seus senhores. Enlouquecer de uma vez era a única opção para se manter, pelo menos um pouco, são.

ASSISTA O ANIME, LEIA O MANGÁ
Shigurui possui duas versões: o mangá e o anime. O mangá, atualmente completo, possui 15 volumes. E o anime, atualmente incompleto (pois a versão animada cobre apenas até a metade da saga) possui 12 episódios. Ambos são inéditos no Brasil, embora o anime possa ser visto praticamente na íntegra no YouTube (com legendas em inglês). E o mangá possa ser encontrado parcialmente traduzido para o português em grupos de Scanlators espalhados pela net.
Ambas as suas versões são verdadeiros Freaks Shows, com guerreiros loucos e bizarros e tinta vermelha espirrando para todo lado. Plus, ainda existe um grande apelo erótico na obra, com nudez e cenas de sexo. Uma “autêntica obra pop japonesa”: imprópria para crianças até a medula.
Se você está cansado de assistir a reprise de Meninas Super Poderosas, ou acha que Dragon Ball é um anime “frouxo” demais, veja Shigurui. Pois apesar de toda a violência e sanguinolência, tanto a obra na tela quanto em papel são conduzidas com uma poética lúgubre inigualável…
…e confesse: todo mundo tem um desejo mórbido de ver sangue espirrando para todo lado! E com essa onda de vampiros bichinhas, melhor ver lutas de samurais!

Matéria/Resenha Gonzo: Semos (sic) Inútil/ Transmetropolitan

Por que você é jornalista?
Você já teve a sensação de ser uma pessoa completamente inútil? Sério mesmo… inútil! Você não acrescenta nada à ninguém, nada à sociedade. Se as pessoas nunca tivessem te conhecido, não faria diferença…
Esta sensação recai principalmente aos ociosos e desempregados. Ficar sem fazer nada é maravilhoso… por um certo tempo! Chega uma hora que aquela culpinha capitalista de TER que trabalhar, TER que ser útil, TER que falar para as pessoas a sua profissão (qualquer que seja) bate à porta – ou então quem bate à porta primeiro são as dívidas. Geralmente, depois que você consegue um emprego, essa sensação de inutilidade desaparece. Afinal de contas, quando você trabalha, você está realizando uma tarefa e não está sendo tão inútil assim, certo?
Errado.
Como cheguei a comentar no OFF da minha primeira resenha, estou trampando com uma coisa que não tem nada a ver comigo. Mas é aquela coisa… TEM que trabalhar, enquanto não exercer a profissão que você sonha. Tudo bem, eu aceitei sem demora, pois pior do que as dívidas era a sensação de inutilidade que eu sentia por estar em casa. Mas qual a minha surpresa ao perceber que a maldita sensação CONTINUA! Firme e forte!
Eu tento me ludibriar e pensar: “Não, não, não, eu ESTOU fazendo algo! Algo importante!” Bem, eu trabalho numa área que é tipo/quase/meio que RH, e todos sabemos que o ÚNICO motivo do RH existir é porque a maioria das pessoas responsáveis pelas empresas não quer chegar nem perto dos famigerados que estão disputando seus empregos mequetrefes! O cara do RH é apenas o sádico que vai intermediar a contratação, fazendo perguntas estranhas, como “que animal você gostaria de ser?” e “você conseguiria trabalhar sobre pressão?” Puta merda… NINGUÉM consegue!
Seja como for, a sensação de inutilidade tem se mantido, pelo menos, estável em seu nível de “auto-depreciação moderada”. Só que ontem, segunda-feira, dia 17 de janeiro, ela atingiu seu pico porque… bem… eu não pude trabalhar! E por quê? O sistema caiu.

Sistema de Merda!
“O Sistema Caiu!”
Quantas vezes você já foi a bancos/agencias/escritórios/whatever resolver alguma pendenga séria, alguma coisa urgente, e não conseguiu porque “O sistema caiu”? Ah! Que BOM se fosse verdade no sentido sócio-economico da coisa!
O SISTEMA CAIU! Perdeu, preibói! Todas as leis que antes funcionavam (mal) não funcionam mais! Este sistema que corrói nossas vidas e nos anestesia com coisas supérfluas caiu! A VELHA ORDEM ACABOU!!! Todo mundo se livrando do tênis Converse, da blusinha Lacoste, do computador da Apple e cuspindo este café horrível da Starbucks! A vida que você conhecia antes não existe mais, e agora nós vamos…!
Ah, que bom se fosse verdade!
Anyway, “o sistema cair” é o tipo de coisa que te deixa puto da vida, certo? Principalmente se for ao telefone, tentando cancelar alguma bosta de serviço. Pois eu lhes digo: NÃO é culpa do atendente do balcão, nem da telefonista. O sistema cai MUITAS vezes não porque essa gente adora fazer charminho ou birra (tá, algumas vezes sim…), mas porque realmente ele “cai”. Os verdadeiros culpados são estes putos dos engenheiros de TI, que parecem fazer estes tais sistemas para caírem de PROPÓSITO! E para piorar NUNCA tem um destes “profissionais” disponíveis quando você precisa!
Eu trabalho num lugar onde usamos um destes tais “sistemas”, e exceção é dia em que ele não dá algum probleminha. Às vezes é coisa de minutos, às vezes leva uma hora para consertar. Mas ontem o sistema despertou problemático, e só voltou quando faltava meia hora para eu sair do trabalho. Alias, QUE trabalho? Sem o sistema eu não posso trabalhar.
Resumo da opereta: ontem eu praticamente não trabalhei.
Que bom, né? Que bom NADA! Se tem uma coisa que eu odeio mais do que trabalhar numa coisa que eu não gosto, é não fazer NADA! – a sensação de inutilidade atinge o pico! – Felizmente, no prédio onde se encontra a minha empresa, tem umas lojinhas no térreo. Uma delas é uma papelaria. Peguei umas folhas de sulfite, um lápis e fiquei desenhando por lá… desenhando… mas o escritório não é um ambiente muito preparado para atividades artísticas e ficar com colegas pescoçando seu desenho a cada cinco minutos é bastante desagradável também!
Por fim, quando deu meio-dia, pude sair para almoçar. Quarenta minutos era o tempo máximo do meu break. Mas eu pensei: “Foda-se!” e os quarenta minutos viraram duas horas. Sendo que uma hora e meia eu gastei na Livraria Cultura.

Ossos do Ofício
Achados e Desencavados
Dá para você desperdiçar uma longa vida na Livraria Cultura da Avenida Paulista! (não, não estou recebendo um centavo pelo merchan) Foi lá que eu afoguei as minhas mágoas, garimpando aquelas estantes de livros uma por uma. Sabe como é o Paraíso? Bem, eu tenho a crença particular que o Paraíso é diferente para cada tipo de pessoa. O meu seria uma Livraria Cultura eterna! Atualizada todos os dias com novas obras dos meus escritores favoritos – os falecidos, que também estariam lá para intermináveis sessões de autógrafos. Com uma lojinha de Frozen Yogurte de um lado e um Rei do Mate do outro. (não, eu REALMENTE não estou ganhando pelo merchan! Juro!).
Vasculhando aquelas centenas de milhares de livros, a primeira hora passou voando. Logo percebi que, apesar de tudo, eu TINHA que voltar para o trabalho um dia. Ou melhor, naquele mesmo dia. Então, para economizar tempo, fui direto para a parte de História em Quadrinhos da livraria, onde eu encontraria com mais rapidez coisas que me apetecessem. E foi lá, olhando para todos aqueles lindos tomos coloridos e importados que eu pensei: “Que merda ser pobre!”.
Enquanto eu segurava nas mãos uma edição importada de um mangá chamado REAL, tamborilando meus dedos sobre ela e pensando se eu devia começar a coleção, corri meus olhos pelas lombadas dos encadernados de quadrinhos americanos. Não sou grande fã de quadrinhos vindo dos Estados Unidos, até porque a grande maioria é de super-heróis. Claro, existem outras coisas maravilhosas, como Sandman, Bone, Estranhos no Paraíso e Planetary, entre outros, mas 70% dos meus títulos favoritos são europeus ou asiáticos. Porém, tive que parar minha vistoria quando vi, escondido entre um encadernado do Capitão América e outro de Mortos-Vivos (o duro desta parte da Livraria Cultura é a organização…) uma das preciosidades vindas dos nossos primos-ricos.
Era o primeiro volume de Transmetropolitan.

Pego de calça curta!
“Não tenho que agüentar essa merda! Eu sou um Jornalista!!!”
Há muitos, MUITOS anos atrás, quando o segundo milênio ainda respirava e as Torre Gêmeas ainda estavam de pé, lembro de ter ido até a casa da minha irmã, recém-formada em jornalismo, para uma visita. Entre aqueles livros engraçados que ela tinha, havia uma revista de quadrinhos. Achei aquilo bem estranho, pois para mim adultos não liam quadrinhos.
Eu ainda estava lendo aqueles gibis do Batman da Editora Abril, e de vez em quando alguma Turma da Monica. De mangá, só havia Ranma nas bancas, e algumas revistinhas informativas jocosas. Aquele gibi, no entanto, era diferente de tudo. E marcaria, para mim, a grande transição de minhas leituras de banda desenhada. Uma história que eu guardaria para sempre no meu coração como uma das minhas favoritas…
Não, não era Transmetropolitan.
Era Sandman – que, naquela época, estava começando a ser relançado pela extinta editora Metal Pesado. Foi naquele momento que eu fui lançada no universo Vertigo – o braço, digamos assim, “adulto” dos quadrinhos da mesma editora do Batman, a DC Comics. A partir dali, História em Quadrinho para mim teria outra conotação. Foi uma época muito boa este entre-milênios para a minha leitura – tanto de quadrinhos como de livros. E enquanto eu lia Sandman, comecei a me dedicar a procurar outros grandes títulos de quadrinhos adultos.
E, mais ou menos na mesma época, chegou o primeiro número de Transmetropolitan ao Brasil.
O título conta a história de Spider Jerusalem, um jornalista e escritor de Best-sellers que vive enclausurado em uma montanha numa vida perfeita, longe das pessoas, apenas com seus discos, livros e seus baseados. Mas tudo muda ainda na primeira página, quando seu antigo editor liga exigindo que ele entregue outros dois livros que ele prometeu escrever em contrato. Sem idéias para escrever e com advogados e policiais na sua cola, Spider não tem outra escolha a não ser voltar para a cidade e começar a escrever estes livros. Uma cidade pra lá de louca!
O lugar é uma caricatura de uma distopia cyperpunk. Maquinários futuristas (ou aparentemente futuristas, contendo um ranço do que se achava que era “moderno” nos anos 80), gangues de visual extravagante, drogas por toda a parte, sujeira, perdição, podridão e política. Uma fossa da civilização: local ideal para qualquer escritor apocalíptico se inspirar. Armado com pistolas, granadas e até um lança-foguete, nosso herói abre caminho em meio ao caos e encontra um velho amigo jornalista. Como precisa de emprego enquanto as idéias para os livros não vêm, Spider arranja um trabalho como colunista no jornal onde seu velho amigo é editor. Começa a loucura…
Esta revista rendeu, no Brasil, três números, que correspondem ao primeiro arco de uma epopéia lisérgica, regada com altas doses de ficção científica e devassidão. Logo de cara qualquer entendido de jornalismo saca que a inspiração para Spider Jerusalem (ou pelo menos uma delas) foi o nosso amigo Hunter S. Thompson, o pai do Jornalismo Gonzo – sujeitinho amalucado e perigoso, que realmente andava armado por aí antes de fazer suas matérias mais perigosas (se eu fosse ele, também puxaria o cano para certos entrevistados!).

"Me dê a porra da entrevista, seu merda!"
Back on the Street
Seja como for, assim que vi este volume na minha frente, peguei-o sem demora. Corri até o caixa (até porque já era mais de duas da tarde) e paguei salgadinhos R$ 34,33.
Este primeiro volume contém as seis primeiras edições de uma epopéia que, nos Estados Unidos, foi publicada até o número 60. No Brasil, depois da falência da Metal Pesado, aparentemente nenhuma editora mais se importou em trazer o restante das aventuras do jornalista louco. Uma pena! Deste modo, se alguém quiser acompanhar as aventuras de Spider Jerusalem, terá que garimpar muito! E provavelmente encontrará o material apenas em inglês.
Tudo bem, tudo bem! Vale a pena!
Lendo este único volume de Transmetropolitan eu aprendi 25 novos palavrões em inglês! Sem falar que serviu de catarse para que eu extravasasse um pouco a minha raiva daquele dia… alias de todos os dias! Além disso pude acompanhar as histórias com uma nova visão. Afinal de contas, quando peguei Transmetropolitan para ler, há dez anos atrás, fiquei muito impressionada por causa dos palavrões, da violência e tal. E qual não foi a minha surpresa ao ficar, novamente, impressionada com a revista, mas por outros motivos!
Spider Jerusalem é o jornalista que TODO jornalista gostaria de ser. Tem contatos quentes, conhece as pessoas, provoca as pessoas, não leva desaforo para casa e tem porte de arma. E mais: possui uma mente ferina e dedos ágeis que tecem as colunas mais loucas sobre os assuntos mais bizarros. Só neste volume ele escreveu sobre uma colonia de humanos que, modificando seu DNA, pretendiam se transformar em alienígenas… fez gato e sapato de um presidentezinho corrupto… assistiu mais de DOIS MIL canais de televisão para mergulhar fundo na podridão humana e, por fim, sacaneou geral com diversas religiões pilantras!
Enfim, enfrentou “inimigos comuns” à qualquer jornalista.
Se você é fã de quadrinhos, certamente caçar Transmetropolitan por onde puder. Se você não é fã, certamente vai virar quando ler esta preciosa peça. Diabos! Se você for jornalista TAMBÉM vai adorar! Mesmo que não ligue para quadrinhos.
Ah… quer saber como foi o resto do meu dia?
Cheguei em casa e não pude ler minha revistinha de pronto. Tive que ir ao dentista e depois ajudar a terminar de empactoar as coisas aqui em casa para a mudança que irei fazer esta semana. Tudo um caos. Tudo desarrumado. Tudo bagunçado… senti-me como o próprio Spider ao chegar na cidade futurista nojenta!
Para piorar, quase intoxiquei-me com o pó de artefatos ancestrais que estavam guardados no fundo de baús e armários (artefatos velhos e inúteis), incluindo uma boneca de um metro de tamanho (conhecida como “Amiguinha”) que era da minha irmã. Embrulhada em saco preto, parecendo um cadáver de Teresópolis, esquecida no fundo das tranqueiras. DEPOIS disso é que, enfim, pude terminar de ler o volume e escrever esta resenha só para o blog não ficar às moscas esta semana.
Tô cansada e suja de poeira. E não consigo nem encontrar a porra da minha escova de dentes. Como eu queria ATIRAR em alguém agora! Nem que fosse uma bolinha de papel…

Hunter Thompson: A semelhança NÃO é mera coincidencia
Resenha Gonzo: Espreme que Sai Sangue

Olá, jovem “foca”! Sim, esta resenha é feita especialmente para você, estudante de jornalismo! Alias, para todos os corajosos solipsistas que cursam uma faculdade, na esperança de que um pedaço de papel de origem animal faça suas vidas melhores… escuta com atenção! Quero que todos vocês façam um favor para mim:
Dirijam-se até a biblioteca da sua universidade (se é que vocês sabem onde ela fica), procurem a estante com livros de Comunicação e vasculhem suas prateleiras em busca deste discreto livrinho, cuja capa está gloriosamente postada acima. Se vocês encontrarem o dito-cujo, parabéns! A sua universidade não é tão pé-de-chinelo como vocês pensavam! Se não encontrarem, intimidem a mulher de óculos no balcão (aquela que sempre pede para os estudantes do recinto baixarem a voz e maneirarem nos palavrões) e faça a sugestão deste livro. Ele DEVE estar na lista das próximas aquisições da sua gloriosa instituição de ensino.
ESPREME QUE SAI SANGUE é um pequeno clássico dos tomos jornalísticos. Não é exatamente um livro técnico ou didático, sendo considerado mais como uma curiosidade. O livro, escrito em 1995 por Danilo Angrimani, publicado pela Editora Summus, é um estudo de caso da imprensa sensacionalista.
Neste precioso tomo, o autor nos brinda com uma interessante monografia sobre o desejo mórbido do ser humano de parar no seu caminho só para ver o cadáver estendido na rua. Fala um pouco sobre o nosso querido Fait Divers, das origens do sensacionalismo na imprensa – pintada com suas chamativas cores “amarela” e “marrom”. Tece um relato sobre o moralismo humano e como várias midias sanguinolentas usam-no para se venderem. E nos presenteia, no final, com um extenso capítulo falando especificamente sobre o extinto diário Notícias Populares.
… e o Lobo Mal estruprou (sic) a Chapeuzinho…
Há muito tempo atrás, num mundo onde não havia programas como “Aqui Agora” e malucos regados à bazófia disfarçada de “seviço-público”, como o Datena, havia o jornal Notícias Populares (1963-2001), NP para os íntimos. Considerado o veículo de informação diária do povão, ele foi o pai do tablóide Meia-Hora e de todas as outras mídias sensacionalistas do pais – do papel, passando pelo rádio, até a televisão e internet. “Nada mais que a Verdade” era o slogan do periódico.
Conhecido por apelar em suas manchetes apenas para vender mais, o jornal era praticamente um show de horrores. Assassinatos bizarros, vida pessoal alheia exposta, atentados à moral e aos bons costumes, pseudociência, seção de apedrejamento e preconceitos raciais/sexuais/políticos/etc. eram as pautas mais comuns. Basicamente, o jornal reunia tudo aquilo que o povo gostava (e ainda gosta).
Muitas manchetes são pontuadas durante o texto. Coisas insólidas, como “Bicha põe rosquinha no seguro”, “Brocha bota o pênis na tomada”, “A morte não usa calcinha” e colunas como “Histórias da Boca” e “Tudo sobre Sexo”. Ah! Admita! Você IA querer dar uma olhadinha nesse jornal, sim senhor!
O capítulo que fala sobre o NP é rico e variado. Porém, existe curioso um estudo de caso em especial no final que é a grande cereja do bolo. Trata-se da história do infame Bebê Diabo.
O Diabo é conterrâneo do Lula!
Em 1975, um jornalista muito bem-intencionado foi cobrir uma pauta num hospital de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, sobre um bebê que teria nascido com má formação. Outra bizarrice que poderia render boas vendas para o NP. Não se sabe exatamente o que o meu distinto colega encontrou lá, mas seja como for a pauta era furada – ou não era “sensacional” o suficiente. Então, ele decidiu simplesmente escrever uma crônica, a qual eu reproduzo mui solicitamente para vocês logo abaixo:

NASCEU O DIABO EM SAO PAULO
Durante um parto incrivelmente fantástico e cheio de mistérios, correria e pânico por parte de enfermeiros e médicos, uma senhora deu a luz num hospital de São Bernardo do Campo, a uma estranha criatura, com aparência sobrenaturais, que tem todas as características do Diabo, em carne e osso.
O bebêzinho, que já nasceu falando e ameaçou sua mãe de morte, tem o corpo totalmente cheio de pelos, dois chifres pontiagudos na cabeça e um rabo de aproximadamente cinco centimetros, além do olhar feroz, que causa medo e arrepios. Parece que tudo começou na Semana Santa, quando o marido da mulher, que é muito religioso, convidou-a para ir à igreja, ver a procissão. A mulher grávida, bateu com as mãos na barriga e respondeu indignada:
– Não vou, enquanto este diabo aqui não nascer.
E foi o que realmente aconteceu. A mulher acabou tendo como filho um monstrinho horripilante, peludo, que ao falar, mais parece que está mugindo.
Inicialmente, há quinze dias, quando os boatos começaram a surgir, poucos acreditavam na história absurda do nascimento do capeta em São Paulo, mas pouco a pouco, os comentários aumentaram e agora, principalmente em São Bernardo do Campo e cidades do ABC, ninguém mais duvida da existência do monstrinho diabólico.
Entretanto, segundo as autoridades médicas, não foi registrado nas últimas semanas nenhum nascimento de alguma criança com problemas congênitos ou anomalias pavorosas. Mesmo assim, até telefonemas de Brasília e outras cidades, estão chegando em São Bernardo, de pessoas que perguntam como o Diabo é, o que que ele come e como é sua aparência, tudo logicamente, desmentido pelos funcionários.
O Hospital São Bernardo, onde se acredita que o Diabo esteja escondido, encontra-se em fase de construção, sendo que a maioria de seus pacientes, é do INPS.
O médico Fausto Figueira Mello Júnior, que ao lado de 12 colegas o dirige, afirmou que dos 15 partos diários, todos são praticamente normais: – Aqui não nasceu nenhum diabinho.
Por outro lado, o diretor administrativo, Roberto Saad, é de opinião que tudo isto não passa de uma piada de mal gosto contra o hospital. Parece porém que, o crescimento do boato e a credulidade de algumas pessoas chegaram a preocupar o secretário da Promoção Social, Enzo Ferrari. Ele, após percorrer todos os hospitais daquela cidade, distribuiu uma nota oficial, desmentindo o boato, dizendo que em São Bernardo do Campo não existe nenhum bebê-monstro.
Entretanto, a própria preocupação do secretário aumentou em algumas pessoas a crença de que o Diabo existe e está disposto a fazer cumprir as profecias satânicas, aumentando o mal na Terra.
– E os primeiros a serem atingidos serão os moradores de São Bernardo do Campo, disse uma senhora, fazendo o Padre-Nosso, defronte o Hospital São Bernardo, onde se encontrava com os olhos demonstrando muito medo.
Assim, aquela que de início era uma estranha e absurda história, agora tomou corpo e chega a preocupar as autoridades daquele município.
Os telefonemas continuam, nas esquinas e nos bares o assunto é só sobre o capetinha e muitos insistem que os responsáveis pelo hospital onde ele nasceu, deveriam colocá-lo em exposição, para que todos vissem o bebê que fala, tem chifres e um bonito rabo de cinco centímetros.
Hããããã?
Mesmo que o próprio Satã tivesse, realmente, nascido em São Bernardo (conjecturas, claro!) repare que este texto, provavelmente, receberia um redondo ZERO de qualquer professor de jornalismo decente. Não especifica qual hospital, o nome dos pais e as únicas fontes confiáveis afirmam que não têm diabo nenhum na cidade. Em suma, não há dados suficientes para preencher todas as velhas 6 certezas jornalísticas: “O quê? Quem? Como? Onde? Quando? Por quê?”.
Mesmo assim MUITA gente caiu no conto!
O periódico sumiu das bancas em questão de horas. Nos dias que se sucederam, todas as pessoas que tinham lido o jornal entraram em pânico. Relatos fantasiosos sobre cidadões que de fato VIRAM o tal bebê começaram a pipocar por toda a parte. As manchetes seguintes eram ímpares: “Bebê-diabo pesa 5 quilos”, “Bebê-diabo inferniza padre no ABC”, “Bebê-diabo parou táxi na avenida”, “Fanáticos ameaçam bebê-diabo do ABC” entre outras. A história deu linha na pipa, e esta voou longe. Durante quase um mês, o assunto foi debatido pelo populacho crente.
Hoje já é notório que tudo não passou de uma grande brincadeira. Porém, mostra o tamanho da força que uma historinha mal escrita poderia ter sobre a massa. Até hoje, ainda existem muitas pessoas que acreditam de pé junto em tudo que se lê num jornal ou numa revista (até na Veja!) é verdadeiro, sem deixar espaço para sua própria cachola funcionar e ponderar os fatos e buscar outras fontes de informação. Estão aí casos bem mais tristes que estes, como o já longamente debatido caso Escola-Base, entre outros.
Vale a pena pegar este livrinho e espremê-lo até consumir todas as gotas do seu precioso liquido vermelho (metaforicamente falando, claro!). Pode ser um pouco difícil de encontrar, pois aparentemente ele encontra-se esgotado. Mas é para isso que servem os milhares de sebos da Sé, não é mesmo?
É pouco provável que o seu professor de Jornalismo se incomode em sugerir esta leitura à você: ele já tem uma pilha imensa de outros livros, bem mais chatos, para você piratear na xérox da sua faculdade. Mas se você realmente se interessa por sexo, sangue e violência, ESPREME QUE SAI SANGUE será uma leitura bastante inteligente – algo raro de se ver, mesmo nos tais “veículos sérios” da imprensa hoje em dia.
Resenha Gonzo: Hipster Hitler
OFF: Pois é, pessoal… aquilo que eu mais temia aconteceu! Depois de um ano e meio de atividade ininterrupta (com direito à longos períodos de publicação DIÁRIA), enfim chegou a minha “crise artística”!
Não estou mais conseguindo ter boas idéias para fazer minhas tirinhas… e mesmo quando eu tenho uma boa idéia, não consigo articulá-la direito nos quadrinhos. E mesmo quando eu consigo fazer isso… vem a encheção de saco! Vocês devem ter percebido isso nos últimos tempos. Quando eu comecei o blog, em 2009, eu postava uma tirinha por dia… às vezes mais de uma! Em 2010, foram publicações apenas nos dias úteis. Depois caiu para 3 a 2 por semana. E agora…
Tudo isso se reflete principalmente no fato de 2010 não ter sido um ano bom para mim. Meus freelas diminuiram (o que exigiu que eu aceitasse um emprego de bater-cartão que REALMENTE não está me alegrando…), minha irmã mais velha está com um terrível problema de saúde, minha insatisfação com meu traço atinge seu ápice, dívidas familiares aumentaram e, para cagar no final, perdi o show do Paul McCartney… enfim! Não vou ficar chorando demais as pitangas aqui, senão daqui a pouco vou confessar que eu sofria bulling na escola também!
Mas para não ficar tudo na deprê, posso dizer agora: nada temam! Eu AINDA irei produzir algumas tirinhas de vez em quando, assim que me der na telha. Mas para não deixar o blog juntando mosca, resolvi iniciar uma nova coluna: as RESENHAS GONZO!
Começando hoje com uma hq online: Hipster Hitler!
………………………………………………………………………..

O que é “Hipster”?
Se você não sabe o que é um “hipster’ e está com muita preguiça de pesquisar no google, eu explico: Hipster era um termo usado durante os anos de 1940′s para classificar um grupo de jovens que apreciava Jazz, frequentava clubes, fumava maconha, pagava um pau para arte moderna, escrevia poesias e livros cabeça. Basicamente os “inúteis” daquela geração. Totalmente contrários à imagem do jovem altruísta e patriótico que vai lutar na Segunda Guerra Mundial – e que se viria a se tornar o “Homem de Família” ideal da década de 50.
Avessos ao que era “popular” e “correto” na sociedade, os hipsters criaram um pequeno cosmo para eles: rodas de poesia, leitura de livros esquerdistas, shows de jazz Bebop e o princípio do “amor livre” faziam parte do seu cotidiano. Seriam eles que abririam caminho para os Beatniks e, posteriormente, os Rockabillies e Hippies. Os bisavôs diretos dos Indies dos nossos dias – de fato, os dois grupos são quase idênticos, tanto que o termo “hipster” foi resgatado e muitos Indies se consideram Hipsters, justamente porque “soa mais de vanguarda”!
Agora… o que aconteceria se Adolf Hitler tivesse sido um Hipster?!?
Isso não faz o MENOR sentido, pelo menos cronologicamente falando, mas… caramba! Não é que esta idéia bizarra rendeu uma hq bastante curiosa?
HIPSTER HITLER… a internet não tem mais o que inventar!

Descobri este site nas minhas andanças pelo cyberespaço. Esta webcomic, criada pelos misteriosos “JO” e “APK”, mostra uma hipótese bizarra: e se Hitler também tivesse se identificado com o movimento Hipster? E se ele agora usasse óculos de aros grossos, camisetas com frases jocosas, usasse franjinha estáile (ops, mas isso ele JÁ usava!), se tornasse um ecochato (isso ele também era…), tivesse alma artística (oh, isso ele TAMBÉM tinha!) e se ligasse no movimento “underground”?
O resultado é um pós-adolescente autocrático, que anda de bicicleta para economizar gasolina, curte arte de vanguarda (que, curiosamente, faz referências à epocas posteriores à década de 40), abomina a celebridade, escreve haikus e se preocupa excessivamente com a estética do movimento nazista. E o mais curioso é que quase chega a fazer sentido!
Desde jovem Adolf Hitler sempre pensou diferente dos demais. Tinha grandes pretenções artísticas, estava longe de ser um conformista, era vegetariano e à favor do direito dos animais – ideais bastante avançados para a época. Era um orador performático e um ator inato e carismático. Sim, era um racista motherfucker, e curiosamente o anti-semistimo era a coisa mais “parecida com os outros” que ele tinha – não podemos nos esquecer que o ódio aos judeus não era exclusividade da Alemanha naqueles tempos. O apelo estético também era muito importante para Hitler – assim como o é para os Indies de hoje (alias, o documentário ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO, de 1992, nos fala bastante deste lado mais “artístico” do nazismo).
Explorando estas pequenas brechas, as piadas hipsterescas parecem cair quase perfeitamente com a personalidade do Führer original, o que chega a ser assustador!
O site tem causado um grande burburinho net afora, também pudera! Estamos falando do homem mais conhecido do mundo – e também o mais odiado. Alguma notoriedade haveria de acontecer bem depressa. E os autores, que não são bobos nem nada, estão começando a lucrar com isso. Primeiramente, com a venda das curiosas camisetas que Hitler usa na webcomic – todas com uma frase irônica que mistura nazismo com cultura underground e roqueira.
O site existe desde agosto deste ano e conta com quase 30 historietas de uma página. O traço do autor é simplório, provavelmente feito com imagens de fotos contornadas, mas quem se importa?! É bom o suficiente para ilustrar o Hitler mais carismático que eu já vi (por mais errado que isso seja!), com direito à expessões e poses que o retratam como um indiezinho afetado perfeito!
Você pode ver as hqs desde o começo clicando AQUI. Estão todas em inglês, e algumas coisas engraçadinhas em alemão. Conhecer um pouco de História ajuda na hora de entender algumas piadas, então faça seu dever de casa! Não será difícil, uma vez que o que mais andam pipocando pelas bancas por aí são revistas de História – mais especificamente falando sobre a Segunda Guerra Mundial.
Vale a pena conferir! E, quem sabe, isto não seja o começo de uma onda de camisetas do Hitler… tal qual as do Mussum e do Seu Madruga!

Estilo Caricato